Açúcar: Fundos podem estar vulneráveis pela surpreendente posição vendida

Arnaldo Luiz Corrêa - diretor da Archer Consulting

Extraído do portal Archer Consulting

O mercado futuro de açúcar em NY fechou a sexta-feira em nova queda semanal com o contrato para vencimento março de 2018 negociando a 13.67 centavos de dólar por libra-peso, ou 38 pontos de baixa na semana. Este é o preço mais baixo negociado desde 29 de setembro. A impressão que grande parte do mercado tinha era que um volume extraordinário de fixação de preços por parte das usinas tivesse contribuído sobremaneira para a escorregada de preços para os níveis atuais. No entanto, isso não ocorreu.

A divulgação da posição dos comitentes pelo CFTC (agência reguladora americana para os mercados futuros de commodities) depois do fechamento do pregão de sexta-feira mostra que os fundos, com base nos dados da terça-feira desta semana, estavam bem vendidos e considerando o quanto a posição em aberto variou desde então devem estar com 120.000 contratos vendidos à descoberto.

Podemos considerar que o mercado reverteu novamente para baixo - tendo ficado pouco mais de três semanas beliscando acima dos 15 centavos de dólar por libra-peso - e agora está fadado e buscar as profundezas de Hades. Espera um pouco, não é bem assim.

Comparo o mercado dos dias atuais como se fora uma enorme bexiga cheia de água que estamos pisando cuidadosamente em uma de suas extremidades (mercado em baixa) enquanto a água se desloca e se avoluma na extremidade oposta (mercado em alta). Os fundos posicionados em 120.000 contratos vendidos à descoberto em um mercado que tem alguns pontos extremamente sensíveis como é o caso do açúcar nesse momento é, para dizer o mínimo, explosivo. Explico adiante.

Janeiro pode ser um mês de espasmos preocupantes. Tempo seco e a sensação de que o Centro-Sul vai moer uma menor quantidade de cana de um canavial que envelhece e compromete a produtividade. O ano vai começar também com a percepção de que estamos saindo de uma crise econômica e o crescimento do PIB esperado para 2018 pode aumentar o consumo de combustíveis em 4 bilhões de litros.

Uma eventual combinação de dólar mais forte, petróleo acima dos 60 dólares por barril (Brent) sob o cenário descrito acima vai canalizar a cana disponível para o etanol e enxugar a produção de açúcar o máximo que puder. Como os fundos poderão encontrar liquidez caso precisem sair de suas posições vendidas? Acho difícil encontrarem usinas brasileiras vendendo açúcar considerando o enorme prêmio que o etanol está sendo negociado contra o açúcar.

Não há dúvidas que os fundos possuem uma posição vulnerável. Em especial porque eles não estão somente vendidos no açúcar por uma razão fundamental especifica, mas porque venderam outras commodities também (café, cacau, suco de laranja, aveia, canola, trigo, milho, todos estão em queda no acumulado do mês). O final de ano será muito interessante e podemos ter surpresas na trajetória de preços. Se o mercado ficar de lado e mantiver um suporte ao redor dos níveis atuais, podemos nos preparar para uma reversão. Caso continue a queda, podemos ver os preços abaixo dos 13 centavos de dólar por libra-peso.

RENOVABIO

Muitas pessoas perguntam sobre o RenovaBio. E como ele vai afetar o preço do etanol/açúcar no futuro. Vamos lá. O RenovaBio é uma política estratégica de Estado que objetiva promover a expansão dos biocombustíveis na matriz energética brasileira e assegurar que exista regularidade na disponibilidade do mesmo. Não é imposto. Para funcionar, essa política que acaba de ser aprovada pelo Senado, ainda existe um enorme caminho a ser percorrido até a sua regulamentação e implementação.

A capacidade de cada unidade produtora, por meio de metas definidas a cada decênio e individualizadas por ano, em reduzir emissões e em atingir metas de produção, será reconhecida com a atribuição de notas individuais por eficiência produtiva e energética, que ao final do processo, transformarão esse conjunto de eficiências em créditos. Ou seja, a dupla combinação de eficiência energética e redução de emissão de gases por parte das unidades produtoras vai se transformar em dinheiro.

Esses créditos, chamados de Crédito de Descarbonização por Biocombustíveis (CBIO) vão refletir a contribuição individual de cada unidade produtora para a mitigação de uma quantidade específica, após análise criteriosa, de CO2. Os CBIOs serão emitidos pelas unidades produtoras de biocombustíveis a partir da comercialização desse produto.

Em outras palavras, a combinação do cumprimento das metas de produção e redução de gases resultantes de cada unidade individual de produção são os elementos formadores do crédito. O CBIO passa a ser um instrumento financeiro negociado em bolsa. Os distribuidores de combustíveis serão os naturais compradores do CBIO para cumprirem suas metas de mitigação de CO2.

Algumas perguntas que amarguram a todos no setor. O RenovaBio é a redenção do setor? Não. O RenovaBio vai ser um indutor para expansão e investimentos? Pode ser se as metas estabelecidas para cada decênio abrirem a oportunidade volumétrica que justifique tal ação pelos agentes. Depende do mercado de combustível global.

Para que o Brasil possa diminuir a importação de Gasolina A e atender a demanda crescente do Ciclo Otto, precisará produzir 820 milhões de toneladas de cana até 2026, ou seja, crescer ao ritmo de quase 4% ao ano nos próximos oito anos. Então poderá atender à demanda de 32 bilhões de litros de hidratado e 12 bilhões de litros de anidro.

Os créditos correspondentes ao CBIOs serão maiores quanto maior for a eficiência da unidade produtora. Por exemplo, uma usina de etanol de cana simples tem um crédito de 100; caso tenha cogeração esse credito pula para 120. Se além disso também tiver biogás, 150. Se agregar o etanol de segunda geração vale 170. Evidente que os créditos são função também do volume vendido.

O RenovaBio induz a um equilíbrio de preços no mercado. Explico: se o petróleo no mercado internacional estiver negociando num valor muito acima do custo de produção do biocombustível, aumentando a demanda por esse último, mais CBIOs serão emitidos e consequentemente seu valor tenderá a zero.

Se, por outro lado, o petróleo no mercado internacional despencar a níveis abaixo do custo de produção do biocombustível, haverá uma demanda maior pelo combustível fóssil e consequente aumento da carbonização. Haverá uma procura por CBIOs para o cumprimento das metas estabelecidas no decênio. O CBIO, neste caso, tenderia a negociar até o limite da diferença entre o custo de produção do biocombustível e o preço do petróleo no mercado internacional.

 

 

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