Açúcar: Semana curta, espera longa

Por Arnaldo Luiz Corrêa

A semana foi encurtada pelo feriado no Brasil na terça feira e o feriado de Ação de Graças nos Estados Unidos. Mas, apesar disso, o mercado de açúcar fechou a semana em queda de 22 pontos, ou quase cinco dólares por tonelada, com o vencimento março cotado a 12.47 centavos de dólar por libra-peso.

O desempenho das commodities no acumulado do mês, em especial as do mercado de energia, tem sido determinante para que o açúcar mantivesse o mau humor. Gasolina, petróleo WTI e Brent se desmancharam com perdas ao redor de 20% apenas em novembro. O Gás natural, no entanto, subiu 34% (veja história abaixo). Como dissemos, petróleo em baixa é pressão no etanol, embora ainda seja competitivo. O preço justo da gasolina na bomba, considerando o valor médio negociado em 100 países consumidores e tendo em vista os 27% de mistura de anidro, deveria ser R$ 4.0700 o litro, ou seja, existe espaço para queda da gasolina até que os 70% de paridade seja mantido.

Os fundos parecem estar observando que direção tomar. O volume diário de contratos negociados em novembro caiu 27% em relação ao mês anterior. A média do fechamento diário do açúcar em NY combinada com o dólar pela taxa fornecida pelo Banco Central mostrava o equivalente a R$ 1,138 por tonelada FOB com prêmio de pol. Novembro até o momento está R$ 25 por tonelada abaixo desse valor. Os fundamentos mais construtivos só vão aparecer ao longo do tempo, quando o mercado tiver uma ideia mais concreta acerca do tamanho da safra do ano que vem (que achamos vai ser menor em ATR).

Um executivo do mercado manda um recado no WhatsApp discordando com meu comentário da semana passada de que o setor vai olhar mais para o açúcar no próximo ano e dispara: “não consigo entender de onde vem tanto pessimismo. Com um governo novo, por pior que ele seja, será melhor que um governo petista. Se o Bolsonaro não inventar moda, o Brasil decolará sozinho. PIB melhor, consumo melhor”.

As exportações brasileiras de açúcar de novembro de 2017 até outubro de 2018 somam 21,958 milhões de toneladas, 26.3% menor do que igual período do ano passado. Pelas projeções, é possível que o volume de exportação do Brasil para o ano 2018/2019 (abril/março) seja de 19.2 milhões de toneladas de açúcar apenas, o que representaria uma queda em relação ao ano anterior de 31%. Caso essa previsão seja correta, o percentual fixado de açúcar para a safra é, portanto, maior do que prevíramos, uma vez que a base agora é menor.

James Cordier, autor do livro de sucesso entre os traders, “The Complete Guide to Option Selling: How Selling Options Can Lead to Stellar Returns in Bull and Bear Markets” [O Guia Completo de Venda de Opções: Como a Venda Opções Pode Levar a Retornos Astronômicos em Mercados de Alta e de Baixa, em tradução livre], protagonizou um dos mais bizarros episódios de que se tem notícia no mercado de commodities, na semana passada. Cordier administrava um fundo cuja clientela era de gente muito endinheirada. Ele também mantinha um site www.optionsellers.com (que foi retirado do ar), em que recomendava estratégias.

Ocorre que Cordier tomou uma enorme posição vendida de calls (opções de compra) em gás natural possivelmente para tentar fazer com que o desempenho de seu fundo encerrasse o ano de 2018 em território positivo, já que perdera anteriormente dinheiro na recente subida do petróleo (que ele estava descoberto). Cordier foi “humilhado” pelo mercado por ter tomado o que se chama de “risco de cauda”, ou seja, a probabilidade de o ativo mudar de preço além de três desvios-padrão. Isso é como se hoje, no açúcar, alguém entrasse pesadamente vendendo calls (opções de compra) com preço de exercício de 23 centavos de dólar por libra-peso, cuja probabilidade de virar um contrato futuro no vencimento é de apenas 0,5% (três desvios), de acordo com o fechamento publicado pela ICE. Alguém aí acredita em açúcar a 23 centavos de dólar por libra-peso no março? Pois é, foi esse o risco que Cordier resolveu correr.

Chamadas de margens, retiradas das cotas pelos investidores e liquidação compulsória por parte das corretoras que operavam para ele, limparam todo o dinheiro do fundo, estimado em US$ 580 milhões. O bizarro da história, não é apenas como investidores confundem genialidade com alavancagem, mas o vídeo que o próprio Cordier postou para seus 290 investidores, com seu terno de US$ 10 mil, Rolex a abotoaduras de ouro, chorando lágrimas de crocodilo e culpando a onda gigantesca que ele não pode perceber que estava vindo e varreu todo o dinheiro. Quanta dignidade!

É assustador como as pessoas não se dão conta que gestão de risco é um negócio sério. Ainda mais aterrorizante é a condescendência com que são tratados gurus desse tipo que perdem dinheiro dos outros em estratégias que são pura jogatina. Veja o vídeo aqui.

BrasilAgro – 26/11/18

 

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