As mudanças climáticas e o apelo dos que ainda vão nascer

Por Paulo R. Haddad

William Nordhaus, da Universidade de Yale e Prêmio Nobel de Economia deste ano, tem escrito sobre a questão das mudanças climáticas em escala planetária. Embora tenha elaborado e testado diferentes e complexos modelos quantitativos sobre os riscos, as incertezas e a economia do aquecimento global, a lógica de seu pensamento é muito clara, podendo ser apresentada didaticamente em quatro movimentos.

O atual padrão de crescimento econômico leva a emissões de dióxido de carbono e de gases de efeito estufa equivalentes na atmosfera. Concentrações crescentes de dióxido de carbono e de gases de efeito estufa equivalentes levam às mudanças climáticas (temperatura, precipitação, elevação do nível do mar etc.). Mudanças climáticas impõem impactos socioeconômicos e socioambientais (quebra da produção agrícola, acidificação do mar, inundações etc.) que podem levar ao colapso de ativos e de serviços ambientais. O quarto movimento leva à necessidade da formulação e da implementação de políticas públicas de mudanças climáticas para reduzir as emissões (políticas de adaptação, de mitigação e de geoengenharia).

Para Nordhaus, o tempo exato e a magnitude desses eventos são frequentemente impossíveis de serem previstos. Destaca quatro elementos ou pontos críticos da mudança climática em escala global. O colapso das grandes camadas de gelo (estima-se que o oceano Ártico fique amplamente sem gelo durante o verão antes do fim do século); mudanças em larga escala na circulação oceânica (a elevação do nível do mar pode chegar a 1,8 m, mesmo excluindo os efeitos das grandes camadas de gelo); processos de realimentação por meio dos quais o aquecimento traz mais aquecimento (efeito albedo); aquecimento expandido ao longo do tempo (a melhor estimativa do aumento da temperatura global de 1900 a 2100 está entre 1,8°C e 4,0°C).

No Brasil, ainda não há uma consciência política mais intensa entre os diferentes grupos sociais no sentido de colocar a questão das mudanças climáticas na agenda das prioridades das políticas públicas. Entretanto, na Conferência do Clima em Paris, em 2015, surpreendentemente o país se comprometeu com a redução de 43% de suas emissões totais de gases que aquecem o planeta até 2030 em relação aos valores que prevaleciam em 2005. Uma meta muito ambiciosa, quando se consideram as grandes transformações que têm de ser promovidas nos usos da terra e da agricultura, na matriz energética, nos atuais padrões de produção e de consumo dos ativos e serviços ambientais etc.

O ponto de estrangulamento para que essa meta se torne realidade está não na esfera da informação e conhecimento, pois temos capital humano e capital institucional de nível internacional, adequados para a coleta, o processamento, a interpretação e a comunicação de informações técnicas e políticas para o processo decisório. Na verdade, o óbice maior está no campo político-ideológico, se considerarmos que as ideias são a base inicial para a concepção e a implementação de políticas públicas. Ideias não se constroem no vácuo das estruturas mentais, mas a partir das realidades históricas e condicionalidades contemporâneas, e não de um voluntarismo desinformado e desavisado.

Somente uma ideologia míope poderá desconsiderar as interpretações científicas que prevalecem sobre as mudanças climáticas e desconsiderar a importância de se implementarem os compromissos assumidos pelo Brasil no Acordo de Paris, que permitirão interromper a condenação estrutural dos novos ecossistemas em processo de degradação. Os brasileiros que ainda vão nascer apelam para que os viventes se conscientizem de que é sua missão histórica preservar, conservar e recuperar o meio ambiente como valor de legado para as futuras gerações.

O Tempo - 25/11/18

 

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