Bioeletricidade: gerando energia e empregos

Zilmar Souza - Gerente de bioeletricidade da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA) e professor da Faculdade Getúlio Vargas (FGV/SP)

Extraído da Revista Canavieiros (edição de nov/2016)

 

No terceiro trimestre de 2016, segundo o IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o desemprego no Brasil, em média, fechou com uma taxa de 11,8%, representando 12 milhões de pessoas sem ocupação. Considerando até setembro de 2016, foi a maior taxa de desemprego de toda a série histórica do IBGE, que teve início em 2012.

Uma forma de impulsionar a geração de emprego, nos últimos anos, tem sido promover investimentos na chamada economia verde. Cunhado (marcado) primeiramente em 1989, num relatório do Pnuma (Governo do Reino Unido, o termo economia verde, segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), define uma economia que resulta em melhoria do bem-estar da humanidade e igualdade social, ao mesmo tempo em que reduz significativamente riscos ambientais e escassez ecológica. Uma economia verde pode ser considerada como tendo baixa emissão de carbono, é eficiente em seu uso de recursos e socialmente inclusiva.

De acordo com a Irena (International Renewable Energy Agency), o setor de energias renováveis empregou mais de 8,1 milhões de pessoas no mundo em 2015, um aumento de 5%, na direção contrária da tendência geral de queda do mercado. A fonte solar fotovoltaica foi a principal empregadora no setor de energias renováveis em 2015, com 2,8 milhões de empregos, seguida pelo setor de biocombustíveis líquidos com 1,7 milhão de empregos, e, na terceira posição ficou a fonte eólica, empregando 1,1 milhão de pessoas. Porém, se somarmos biomassa sólida e biogás, teremos um total de 1,2 milhão de empregos gerados em 2015, sendo 822 milhões com a biomassa sólida e 382 milhões no setor de biogás. A tabela 1 mostra esta informação.

Este potencial de geração de empregos pelas fontes renováveis solar, biomassa e eólica já havia sido identificado em trabalhos anteriores. Em 2005, Costa & Prates (BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) Setorial, mar. 2005) mostraram que as campeãs na geração de emprego por TWh seriam as fontes solar e biomassa, seguidas pela energia eólica. A tabela 2 procura sintetizar estas informações.

A tabela 2 reflete a importância que tem a bioeletricidade sucroenergética como potencial geradora de empregos diretos e indiretos neste momento persistente de contração econômica. Entre 2010 e 2015, a geração total de bioeletricidade sucroenergética cresceu 53% e a oferta para o sistema elétrico cresceu em 104%, conforme se observa no Gráfico 1.
A geração total da bioeletricidade sucroenergética em 2015, de 34,16 TWh, nos reporta para uma estimativa de geração de empregos diretos por esta fonte da ordem de mais de 184 mil postos, conforme tabela 3, reforçando a capacidade de criação de emprego intrínseca ao investimento em bioeletricidade sucroenergética.

E o potencial de geração de energia e, por consequência, de novos postos de trabalho é bem superior. De acordo com o último PDE 2024 (Plano Decenal de Expansão de Energia), considerando o aproveitamento pleno da biomassa existente (bagaço e palha) nos canaviais em 2015, a geração de bioeletricidade sucroenergética para a rede tem potencial técnico para chegar a mais de seis vezes o volume de oferta à rede em 2015, conforme se observa no Gráfico 2.

Ainda de acordo com o PDE 2024, o potencial técnico de geração anual para a rede pela biomassa da cana pode ir além e alcançar quase duas usinas do porte de Itaipu, com geração de 165 TWh/ano até 2024. Supondo o indicador superior de 5.392 empregos diretos por TWh, a bioeletricidade sucroenergética teria uma capacidade teórica de proporcionar até 890 mil postos diretos até 2024 à economia brasileira, considerando apenas a geração para o Sistema Interligado Nacional.

No entanto, a fonte biomassa em geral, que já chegou a representar 32% do crescimento da capacidade instalada no país, tem previsão de participar em 2016 com 9% da expansão anual da capacidade instalada no Brasil, índice que poderá cair para apenas 1% até 2019, como se pode observar no Gráfico 3, por meio de dados da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica).

Segundo a Unesco (2016), a chamada economia verde sustenta-se em atividades de baixo carbono, que promovem a eficiência no uso dos recursos naturais e são socialmente inclusivas. Nesta linha, o investimento em bioeletricidade se encaixa perfeitamente nos requisitos “green economy”.

É importante que os índices que a bioeletricidade tem de participação na matriz elétrica não sofram retrocessos. Há espaço para todas as energias renováveis – biomassa, eólica, solar, PCHs – na matriz elétrica, permitindo manter um índice invejável de renováveis na matriz elétrica brasileira, sobretudo, em virtude dos compromissos assumidos durante o Acordo de Paris (COP21). Contudo, um ajuste importante precisa ser feito urgentemente: definir claramente políticas de longo prazo estimulantes para a bioeletricidade, concatenadas também com uma política setorial apropriada para o etanol brasileiro.

 

 

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