Editorial - Transporte urbano

O Estado de S. Paulo - 29/11/2018

Um estudo da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP) com dados de 2016 - referentes a cidades que concentram dois terços da população brasileira -, que acaba de ser divulgado, faz uma notável radiografia do sistema de mobilidade urbana de todo o País. A pesquisa merece a atenção não só das autoridades às quais cabe tomar as decisões destinadas a melhorar o serviço de transporte público, mas também à população em geral que é a principal interessada no bom funcionamento do sistema.

O trabalho levanta informações que podem surpreender os usuários dos vários modos de deslocamento no meio urbano e até mesmo pessoas afeitas a lidar com o problema como profissionais. Um exemplo é a distribuição dos 65,3 bilhões de viagens realizadas nos vários modais em 2016. Há muito não é novidade que um grande número de viagens é feito a pé, seja porque as distâncias a serem percorridas são pequenas, e por isso compensam o esforço físico, seja por falta de dinheiro, o que se tornou mais comum por causa do desemprego e da grave crise por que passa o País.

Mesmo assim, não deixa de espantar que nada menos que 43% das viagens, ou 28 bilhões do total, tenham sido feitas a pé ou de bicicleta. Os deslocamentos de bicicleta são de número quase insignificante naquele total, apenas 1,6 bilhão. Isso significa que, por maior que seja a necessidade de ajudar a incentivar um meio de transporte que em todo o mundo tende a crescer, essa expansão deve começar, como é óbvio, pelos locais de maior procura por ciclovia, ao contrário do que foi feito, por exemplo, com a maioria das implantadas na capital paulista no governo do prefeito Fernando Haddad. O grande problema apontado pelo dado referente às viagens a pé é a necessidade de melhorar as calçadas, principalmente das cidades grandes e médias, cujo estado é em geral lastimável, o que dificulta as caminhadas e expõe os pedestres a sérios riscos de acidentes, como revelam as estatísticas.

Em segundo lugar vem o transporte individual motorizado, por carro (16,2 bilhões de viagens) e motos (2,7 bilhões), num total de 18,9 bilhões, ou 29%. Depois, com uma pequena diferença, vem o transporte coletivo: ônibus, com 15,9 bilhões de viagens, e sistema metroferroviário, com 2,4 bilhões, num total de 18,3 bilhões, ou 28%. É preciso evitar equívocos que podem ser sugeridos pelo fato de o número de viagens no transporte individual ser maior que no coletivo. O coletivo, é claro, transporta um número de passageiros muito maior por unidade. Mas a comparação de uns e outros números é importante para mostrar o papel relevante que o transporte individual representa e ainda representará por um bom tempo nas cidades grandes e médias, e o quanto, por isso, é descabido e irresponsável demonizá-lo demagogicamente, sob pretexto de favorecer o transporte coletivo, como se fez em São Paulo no governo Haddad.

E essa situação vai durar porque a solução do problema do transporte urbano depende, a curto e médio prazos, da reforma e melhoria do serviço de ônibus, para torná-lo rápido e confortável. É o tempo de espera necessário para expandir a rede de metrô e modernizar e ampliar a de trens de subúrbio, que demandam maiores investimentos e prazos longos. São eles, como mostra o exemplo das cidades dos países desenvolvidos, em especial os da Europa, os principais pilares de um eficiente - rápido e pontual - sistema de transporte para as grandes cidades. É esse sistema que, aqui e lá fora, transporta o maior número de passageiros pelas maiores distâncias.

Enquanto isso, as cidades brasileiras terão de conviver com grandes frotas de automóveis e motos. Com maior razão ainda - pois as viagens a pé lideram os deslocamentos - é importante cuidar melhor das calçadas, que mesmo em São Paulo, a cidade mais rica do País, estão em péssimo estado.

Além de alguns dados novos, essas são velhas e teimosas verdades que o estudo da ANTP vem relembrar.

 

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