Estamos fazendo dos alimentos nossos aliados ou inimigos?

Por Daniel Magnoni, cardiologista e nutrólogo do Hospital do Coração e do Hospital Dante Pazzanese em SP

Extraído da Diretoria de Saúde da Veja 11/12/17

A população necessita se atentar aos hábitos alimentares, que vem influenciando no aumento da incidência de diversas doenças. Segundo dados do VIGITEL 2016, o brasileiro está passando por um momento de transição, saindo da desnutrição e caminhando para a obesidade.

Só nos últimos 10 anos, o aumento foi de 60%. Com isso, é evidente que ainda há um longo caminho a se percorrer em direção a uma alimentação mais saudável e uma qualidade de vida melhor.

A ciência da nutrição já passou por diversas fases. Ovos, pães, manteiga, leite e muitos outros alimentos já foram vistos como vilões da nossa dieta. A comida virou tema científico, com quantidade, jeito certo de preparar e de consumir, e por isso as pessoas vem tomando atitudes extremas com relação a isso. Ou se privam por completo de determinados ingredientes, ou usam a comida como válvula de escape, abusando das quantidades e esquecendo o bom senso.

Restringir não é a solução

Um tema que vem sendo pauta de discussão nesse âmbito, principalmente no governo e em algumas associações, são medidas restritivas, como a taxação de alimentos açucarados, vista por muitos como uma solução desse problema.

 Porém, o que não se vê é que tal ação segue na mesma linha da restrição, e pior, acaba representando uma punição para aquele que deseja consumir alimentos com açúcar, quando o real intuito deveria ser fazê-lo compreender como incluir todos os ingredientes numa dieta equilibrada.

Outro ponto conflitante é a mudança na rotulagem. O rótulo dos alimentos, além de informar e fornecer dados referentes aos nutrientes, deve educar e tornar o conhecimento dos alimentos mais acessível. Colocar informações punitivas e alarmistas sobre os nutrientes também é uma forma errônea de legislar.

Aprendendo com o Paradoxo Francês

Antigamente, os cientistas não entendiam como os franceses não tinham colesterol alto e problemas do coração, mesmo comendo gordura e açúcar, o que ficou conhecido como “O Paradoxo Francês” e dominou a mídia nos anos 90.

 Porém, ficou comprovado que a justificativa é seu estilo de vida— eles caminham, cozinham, comem com calma e em porções pequenas — o que faz com que comer açúcar e gordura e tomar vinho, por exemplo, não tenha um impacto negativo na saúde, pelo contrário.

Atividades físicas regulares, que estejam adequadas ao estilo de vida de cada um e que se sustentem por mais tempo, são recomendações que devem ser seguidas e complementam uma alimentação adequada, proporcionando uma melhor qualidade de vida das pessoas. Extremismos, tanto em dietas como exercícios, tendem a não ser sustentáveis por muito tempo, o que dificulta o controle da própria saúde.

Equilíbrio é o segredo

A mensagem que deve ficar é: tenha equilíbrio em todos os aspectos da vida. Pode comer de tudo um pouco, desde que seja com bom senso e acompanhamento, por profissionais de saúde de forma regular. A proibição gera compulsão e não resolve os principais problemas de saúde do país.

 

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