Incertezas rondam os veículos elétricos

Por Roberto Rockmann

Os carros elétricos ganharão espaço crescente na rua das principais cidades do mundo, o que também trará impacto para as concessionárias de energia elétrica. Não será diferente no Brasil, embora a inserção do carro elétrico na matriz de transportes ainda seja incerta.

No país, esses veículos menos poluentes poderão ter seu futuro ligado ao etanol. A Toyota realizou no início desse ano um teste pioneiro no mercado mundial: um veículo da marca, o primeiro do mundo a combinar um propulsor elétrico e outro flexível a gasolina e etanol, rodou 1,5 mil quilômetros entre São Paulo e Brasília.

Estudos preliminares feitos pela montadora indicam que o híbrido flex tem um dos mais altos potenciais de compensação e reabsorção na emissão de dióxido de carbono gerado desde o início do ciclo de uso do etanol extraído da cana-de-açúcar, passando pela disponibilidade nas bombas de abastecimento e por sua queima no processo de combustão.

Além da escolha da tecnologia, outra incerteza se refere à infraestrutura elétrica que terá de ser viabilizada para que os carros possam ser abastecidos. Estudo recente da CPFL Energia estima que o Brasil precisará de 80 mil eletropostos públicos até 2030 para acompanhar o ritmo de crescimento do mercado de veículos elétricos nacional.

Neste cenário, a frota de carros elétricos puros e híbridos plug-in no Brasil deve alcançar dois milhões de unidades em circulação. Um dos desafios para a expansão da mobilidade elétrica no Brasil é o desenvolvimento de um mercado de recarga pública com eletropostos semi-rápidos e rápidos.

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou a regulamentação, em junho deste ano, para a infraestrutura de recarga para veículos elétricos. Pelas regras definidas pelo regulador, qualquer empresa, seja do setor elétrico ou não, pode investir na instalação de eletropostos.

Com o modelo regulamentado pela Aneel -pelo qual qualquer empresa poderá instalar um posto de recarga em uma rodovia ou em um estabelecimento comercial - a expectativa é que as perspectivas de expansão da mobilidade elétrica no Brasil atraiam novos players, viabilizando um mercado competitivo no futuro.

O avanço dos carros elétricos incorpora outra mudança no setor elétrico, permitindo que o consumidor ganhe ainda mais poder. Um cliente pode, por exemplo, chegar à sua casa à noite com metade da carga de seu carro elétrico e conseguirá vender essa carga restante ao sistema para obter receita e depois configurar sua bateria para ser recarregada de madrugada, quando o preço da energia é mais baixo. Para que isso ocorra, será preciso que as redes inteligentes de energia permitam a gestão do consumo e façam a leitura tanto do consumo quanto da geração.

Para a vice-presidente de Operações de Mercado da CPFL Energia, Karin Luchesi, as novas tecnologias são uma tendência irreversível, mas é essencial avaliar os impactos dela, principalmente para os clientes de baixa tensão, os residenciais. "A abertura deve ser gradual e estruturada, mas ela não pode ser um fim em si mesma, até porque depende de conscientização do consumidor residencial, que nem medidor inteligente tem hoje, ou seja: essas novas tecnologias trarão benefícios para ele? A reação do consumo acontece com o preço, mas será que o cliente residencial tem como avaliar isso e, por exemplo, gerenciar o carregamento de um carro elétrico em razão de preço de energia em determinados horários?", questiona Karin.

Valor Econômico – 30/11/18

 

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