Mudança pode gerar um novo ciclo de desenvolvimento

Presidente da Siamig - Associação das Indústrias Sucroenergéticas de MG

Extraído da Revista Opiniões - Nº 58 - Outubro 2018 a Janeiro - 2019

Um novo caminho para o Brasil foi escolhido nas urnas no último pleito eleitoral, e o setor sucroenergético, como parte importante do agronegócio nacional, apoiou a mudança e tem grandes expectativas em relação ao governo do presidente Jair Bolsonaro.  Porém os desafios são muitos para que o setor e os outros segmentos econômicos possam ter um ambiente mais propício de negócios, com ideias liberais mais internalizadas e maiores oportunidades em benefício de toda a sociedade. 
 
Dentro dessa expectativa de mudanças, é preciso se atentar para o gigantesco trabalho que deve ser feito pelo novo governo federal na busca do equilíbrio fiscal, com um choque nas despesas e aprovação das reformas, pois o brasileiro não suporta mais um aumento na carga tributária. 
 
A reforma da Previdência, principalmente a pública, é urgentíssima, pois tem interferido, cada vez mais, nos déficits fiscais. Assim como também os governos estaduais precisam solucionar seus déficits e retornar com as políticas públicas de apoio ao crescimento econômico. 
 
A outra reforma necessária é a tributária, pois a complexidade desse sistema inviabiliza diversos investimentos necessários para o crescimento do setor e da economia como um todo em infraestrutura e logística. Se tivermos um sistema tributário mais simples, com menor custo, os produtos nacionais ganharão maior competitividade, tanto no mercado interno quanto aqueles destinados à exportação, como o açúcar e, por que não dizer, também o etanol. 
 
Espera-se, portanto, que o novo governo seja reformista, que consiga melhorar o ambiente de negócios, baixar o custo Brasil e atrair novos investimentos e, na outra ponta, abrir mercados para os produtos brasileiros. Se o Brasil der certo e sair dessa situação econômica difícil em que se encontra, não somente os produtos do setor sucroenergético poderão contar com um forte mercado interno e externo, mas também os outros segmentos terão condições expressivas de crescimento. 
 
Como em todo processo democrático, é preciso que se tenha, também, abertura de diálogo para que se possam entender as necessidades do setor e que possíveis impasses não atrapalhem a rota do crescimento. Existem assuntos polêmicos que podem aparecer durante a gestão do novo governo e que demandarão negociações, como a política de combustíveis que impactam diretamente o etanol e as decisões de produção das empresas.
 
Quanto ao açúcar, com a maior parte da produção destinada à exportação, é preciso um acompanhamento do mercado externo e de abertura de novos mercados. A energia elétrica do bagaço de cana também demanda políticas de incentivo equiparadas às realizadas hoje para a energia eólica e solar.
 
O governo de transição do presidente Michel Temer realizou uma agenda importante, de forte impacto no setor sucroenergético nacional. Além da reforma trabalhista, imprescindível para competitividade da economia brasileira, foi neste governo que foi aprovado, em tempo recorde, aquele que poderá representar um novo tempo ao setor sucroenergético, o programa RenovaBio. 
 
O RenovaBio é um dos cinco pontos fundamentais, na nossa opinião, para que o setor possa seguir com sua produção de energia renovável, contribuindo para a redução do aquecimento global, além da grande geração de emprego e de renda no campo. O programa ainda depende de algumas regulamentações, com grandes expectativas para entrada em vigor no final de 2019. Ele vai ao encontro da discussão mundial sobre uma política mais efetiva de precificação de carbono dentro de um sistema avançado e maiores possibilidades de cumprimento das metas do Acordo de Paris. 
 
O segundo ponto é a necessidade de uma mudança da política externa para uma maior efetividade de acordos para o açúcar e, também, para que o etanol faça parte da cesta de produtos do Brasil como prioridade de defesa comercial. Há excelentes oportunidades de mercado na América Latina e em toda a Ásia, seja para venda de nossos produtos, ou mesmo na promoção e no incentivo à produção interna de etanol, extremamente importante para consolidação de um mercado internacional para o biocombustível. Temos visto alguns países que têm colocado barreiras ao açúcar brasileiro, e outros concorrentes implantando subsídios que desestruturam todo o mercado mundial.
 
Um outro ponto importante é a defesa do etanol na discussão do futuro do automóvel. O País tem uma solução importante para a redução da poluição e do aquecimento global, que é a produção dos biocombustíveis, integrada aos programas do RenovaBio e do Rota 2030, recentemente aprovado.
 
Portanto é importante que essa produção seja reconhecida e que o Brasil possa caminhar, ainda dentro desse escopo, para alternativas como a produção de veículos híbridos e, no futuro, a célula de combustível com uso de etanol. Obviamente, a eletrificação dos motores será uma tendência forte, mas tem várias formas de isso ocorrer, um híbrido com dois tipos de motor, a combustão e o elétrico funcionando como complementar, e a célula de combustível, podem trazer muitos benefícios para o segmento.
 
O quarto ponto é a manutenção da atual política de preços dos derivados do petróleo, pois o setor ganhou uma outra dinâmica nesse sistema, com maior previsibilidade, essencial para os novos investimentos. Por fim, como quinto ponto importante dessa extensa agenda, está o aumento da concorrência no mercado de refino de petróleo no Brasil. Atualmente, de fato, há um monopólio pela Petrobras, o que prejudica a competição no mercado de combustíveis no País, que somente será equacionado com a entrada de novos players na produção de derivados no Brasil.
 
Os desafios são tremendos, mas trazem oportunidades, como o conceito da tecnologia 4.0, que começa a ser aplicada também no agronegócio e pode ajudar muito o setor sucroenergético na recuperação, por exemplo, dos índices de produtividade. Alguns produtores já se estão beneficiando dessas novas tecnologias, com resultados fantásticos, aproximando mais das instituições de pesquisa e verificando exemplos de outros produtos do agro, como os grãos, que têm um nível tecnológico maior, com excelentes resultados. 
 
Quando conseguirmos ultrapassar todos esses desafios, outros virão, mas é preciso lutar para que o setor possa continuar crescendo e, assim, toda sua cadeia produtiva, com impactos altamente positivos no desenvolvimento econômico e social das regiões onde atuam, com ganhos para todo o País. 
 
As expectativas são as melhores possíveis, e esperamos que o novo presidente, Jair Bolsonaro, abrace o segmento agroindustrial e que veja os biocombustíveis, o açúcar e a bioeletricidade como produtos estratégicos para o presente e o futuro do País.

 

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