Muitas incógnitas de uma intrincada equação

Por Arnaldo Luiz Correa – Diretor da Archer Consulting

Extraído do portal Archer Consulting – 24/03/2018

Os números divulgados pela UNICA referentes ao início da moagem da safra 2018/2019 do Centro-Sul ainda não representam muita coisa. No entanto, em conversas com várias usinas, o consenso mostra que estamos caminhando celeremente para um mix de açúcar bem mais próximo de 40% comparativamente à média das previsões que rondam o mercado e que estavam em torno de 43%.

O fato de os preços do açúcar no mercado futuro de NY estarem extremamente pressionados (o vencimento maio fechou a semana a 12.61 centavos de dólar por libra-peso, uma pequena queda de apenas 4 pontos em relação à sexta-feira anterior) alimentam a preocupação das usinas que viram a chave para a produção de etanol sem pestanejar.

Apesar do mau humor do mercado temos razão para acreditar que este deverá ser um ano de grande volatilidade e de solavancos típicos de montanha russa. São muitas as variáveis que estão sobre a mesa, todas elas importantes e muitas em completa indefinição. Montar um plano estratégico que nos mostre o caminho das pedras é tarefa árdua.

Primeiro, comece pela quantidade de cana a ser moída no Centro-Sul. As estimativas estavam girando na média de 585 milhões de toneladas, mas agora começam a mostrar uma leve tendência de baixa com números que podem chegar a 570 milhões de toneladas, sem nenhum susto. Segundo, a definição do mix. Se antes o mercado trabalhava com 43% de açúcar, agora caminha para os 40%. Terceiro, o preço do petróleo no mercado mundial está novamente encostando nos 70 dólares por barril (Brent) e percebemos que a Petrobrás está segurando o repasse desse aumento integralmente para o consumidor. Isso não vai durar.

Em quarto lugar, todas as previsões de Índia, Tailândia e Centro-Sul assumem que não haverá nenhuma mudança no clima. Só que as coisas não são assim no mundo real. Quinto, a instabilidade política no Brasil que vai se acentuar num ano de eleição, ainda mais agora com o grotesco espetáculo promovido pelo STF, vai elevar o patamar do R$ em relação ao dólar. Sexto, a imensa posição vendida dos fundos, com 169,000 lotes tem seu preço de equilibro não muito distante do mercado (13.62 centavos de dólar por libra-peso, segundo nosso cálculo) colocando-a em grande vulnerabilidade se qualquer fagulha provocada por fricções que possam ocorrer nos fundamentos do mercado.

Em sétimo lugar, o crescimento da demanda para veículos novos deve crescer este ano no Brasil colocando mais 2.2 milhões de unidades nas ruas. Último, mas não menos importante, o crescimento do PIB (entre 3.5 e 3.8%) vai fomentar o consumo de produtos alimentícios e industrializados podendo aquecer o mercado de açúcar internamente, tirando-o do fundo do poço que se encontra e colocando o açúcar de exportação em disputa não apenas com o hidratado, mas também com o mercado interno.

Um dado interessante obtido após análise dos números coletados pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos sobre os estoques mundiais. Nos últimos 20 anos, o maior acréscimo na formação de estoques mundiais de açúcar aconteceu em entre outubro de 2012 até setembro de 2013, quando os estoques pularam de 35.19 milhões de toneladas de açúcar para 42.29 milhões de toneladas de açúcar, ou seja, um acréscimo de 7.1 milhões de toneladas. Nesse período, o açúcar negociou na média de 867 reais por tonelada que corrigidos para valores de hoje representam 1,176 reais por tonelada ou – se pegarmos o preço mais baixo do período – R$ 1,054 por tonelada. Se usarmos a média da cotação do real de fevereiro, de R$ 3.2500, o preço mais baixo observado em 2012/2013 (safra mundial) convertidos para NY daria 14.12 centavos de dólar por libra-peso.

A volatilidade do mercado ainda está muito baixa. Com os solavancos que deveremos assistir ao longo dos próximos meses em função de tantas incógnitas que fazem parte dessa intricada equação do açúcar, vale a pena olhar estruturas para a segunda metade desse ano em busca de situações chamadas de cisne negro, ou seja, aquelas improváveis. Um trader do mercado disse, desconsolado, que o açúcar “está tão ruim, mas tão ruim, que para melhor não precisa de um cisne negro, mas de um elefante negro”.

O Supremo Tribunal Federal fez justiça à sua reputação. A mais alta corte do país está chafurdada no mais fétido lamaçal da história da república em companhia dos igualmente podres poderes legislativo e executivo. O Brasil se notabiliza como maravilhosa terra de bandidos. Aqui, o ladrão de galinha e o batedor de carteira vão para a prisão imediatamente, enquanto um criminoso como o ex-presidente Lula, cuja banca de advogados é a mais cara do país, faz campanha para as eleições presidenciais de 2018. Não deve existir no planeta país com tamanho descaramento em cultuar a impunidade. Aqui o crime compensa e a vergonha de ser brasileiro aumenta a cada dia.

 

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