O agro não precisa ser 'pop', basta ser o que é

Por Mauricio Nogueira - engenheiro agrônomo, sócio da Agroconsult

Extraído do Jornal Valor Econômico – 26/02/2018

A agropecuária brasileira moderniza-se em ritmo acelerado e ininterrupto. Somando toda a produção de origem vegetal e animal, é possível concluir que os produtores obtêm cerca de 5 toneladas de produtos para cada hectare cultivado no Brasil. É o dobro do registrado há 15 anos. Antes que a sociedade percebesse a importância da produtividade para garantir a tão almejada sustentabilidade, os produtores já estavam aprimorando e investindo em técnicas mais modernas de produção.

Ainda assim, o setor precisa conviver e se defender dos preconceitos daqueles que se dedicam a demonizar a atividade mais dinâmica da economia nacional. Cada vez mais despidos de argumentos, eles lançam mão de estatísticas inverídicas ou conclusões falaciosas. É o caso da afirmação que aponta uma área de pastagens no Brasil de 230 milhões de hectares, número sem respaldo em qualquer base de dados confiável.

Para ter ideia do exagero, a soma de toda a produção agropecuária ocupa hoje pouco mais de 240 milhões de hectares, incluindo pastagens e florestas comerciais. Inflar as áreas de pastagens é um dos artifícios usados para superestimar os impactos do desmatamento.

Entre 1990 e 2016, a área total desmatada somou 38 milhões de hectares. No mesmo período, a área agrícola avançou 21 milhões de hectares. No entanto, o total destinado à produção rural em 2016 foi 4,2 milhões de hectares menor do que em 1990.

Essa redução é explicada pela recuperação da vegetação nativa, seja por recomposição planejada (minoria), seja pela perda gradual de parte das áreas, consequência da dificuldade em controlar o avanço de plantas invasoras (maioria). Praticamente a totalidade das perdas pela infestação por invasoras ocorre em pastagens.

O cruzamento de dados oficiais permite concluir que, no período, cerca de 50 milhões de hectares teriam sido recobertos por matas nativas. Para cada hectare desmatado, outro 1,3 hectare foi ou está em recuperação.

O MapBiomas, projeto que reúne diversas bases de monitoramento do uso do solo, é frequentemente citado nos mesmos textos que superestimam as áreas de pastagens. O interessante é que o próprio projeto identifica 150 milhões de hectares cobertos por pastos. Essa área não é usada pelos profissionais especializados no agronegócio que trabalham com um total próximo dos 165 milhões de hectares ocupados por pastagens. O número, 15 milhões acima do apontado pelo MapBiomas, é o mais aceito atualmente.

Os produtores rurais conseguiram construir uma das produções mais potentes do mundo ocupando apenas 28,5% da área do país. Inexplicavelmente, essa verdade provoca incômodos em algumas pessoas, que se dedicam a desqualificar o agronegócio.

Os produtores rurais construíram uma das produções mais potentes do mundo ocupando só 28,5% da área do país

Problemas históricos, consequência do mau planejamento da sociedade, foram e estão sendo resolvidos pela disposição de quem está no campo. Mas os críticos não se interessam pelos resultados. O objetivo parece ser punir aqueles que exercem o ofício de trabalhar a terra. O agro não precisa ser "pop", o agro precisa ser o que é, sem que tenha que destinar tempo e recursos para se defender de ataques construídos por grupos de interesse.

Com frequência, associam a produção rural com casos de corrupção e violência, uma relação irresponsável e absurda. Principalmente por se tratar de um país que soma recordes negativos em ambos indicadores. Ao contrário de ser a causa, é provável que o produtor seja a vítima mais exposta da sociedade brasileira. É ele o maior alvo de inúmeros agentes corruptos que se locupletam das pesadas burocracias do Estado para oferecer as suas prateleiras de facilidades. É o produtor que está mais longe da polícia, quando a violência chega à sua porteira.

Na comparação com outros países, onde as áreas ocupadas pela agropecuária são proporcionalmente menores, sempre são omitidos dados referentes à quantidade de terra agricultável. Com parte de seus territórios cobertos por montanhas, áreas congeladas ou desertos, a disponibilidade de área utilizável é menor. As exceções se resumem aos paupérrimos países da África subsaariana, que praticamente se destruíram em conflitos internos travados nas últimas décadas do século passado. Por outro lado, no Brasil, são ocupados apenas 60% dos cerca de 400 milhões de hectares potencialmente agricultáveis, segundo números da FAO. Se toda essa área fosse utilizada, a produção agropecuária se estenderia por 47% do território. Aí sim, comparações com países de relevância agrícola fariam sentido.

O critério de cálculo das emissões de carbono está longe de um consenso, já que a metodologia para inventariar as emissões da pecuária desconsidera o carbono que é removido e incorporado pelas pastagens. Equivaleria dizer que bovinos são criados no concreto, sem nenhuma produção vegetal para mantê-los.

Quando o sistema pecuário todo é contabilizado, a incorporação de carbono pelas pastagens praticamente neutraliza o que é emitido pelos bovinos. Em pastagens mais produtivas e com maior desempenho animal, o saldo passa a ser positivo na proporção de até três unidades de carbono removida para cada uma emitida. Se o debate fosse focado na ciência, a pecuária seria vista como grande potencial mitigatório de carbono atmosférico. Pesquisas científicas enriquecem ano a ano a base de conhecimento sobre o tema.

Ainda com relação ao inventário de carbono, as áreas desmatadas são contabilizadas nas emissões da produção rural. No entanto, as áreas em regeneração natural, que de 1990 em diante superaram o desmatamento em 30%, não são consideradas no total de carbono removido pela atividade.

Os adeptos da agenda do contra precisam decidir se vão aceitar a modernização ou se continuarão se esforçando em atrasar o país através de inverdades e especulações. Seja pela desmoralização da imagem de quem produz, seja pela criação de dificuldades burocráticas, é inegável que o conjunto de ações destes grupos aumenta os custos de produção que, em última instância, afetam justamente os mais pobres. São recursos que poderiam ser usados para aumentar ainda mais a produtividade, avançar nas inovações e acelerar a construção de uma produção cada vez mais sustentável.

 

 

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