O custo do clima

Extraído do editorial da Folha de São Paulo – 03/4/17

Confirmando-se a análise do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos, a maior parte do Nordeste brasileiro enfrentará mais três meses de chuvas abaixo do normal, de abril a junho, prolongando uma seca que já dura cinco anos.

Não está clara a ligação da estiagem aguda com a mudança do clima planetário, mas é possível que ela decorra de um aumento da temperatura nas águas do Atlântico causado pelo aquecimento global.

Um evento extremo desses tem enorme custo social: a Confederação Nacional de Municípios estima que só a agropecuária da região tenha sofrido prejuízo de R$ 95 bilhões com a seca entre 2012 e 2015.

Em 2015 e 2016, o PIB nordestino encolheu 4,3%. Foi o pior resultado regional, para o qual o clima inclemente certamente concorreu.

No Brasil ainda é incipiente essa linha de estudos para predizer o impacto socioeconômico da eventual mudança do clima. Já existem, porém, trabalhos para quantificar o custo de combatê-la com a redução nas emissões de gases do efeito estufa em vários setores.

Como noticiou esta Folha na quarta-feira (29), a mais abrangente dessas projeções partiu do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.

O estudo integra previsões sobre o custo de mitigar emissões nas áreas em que o país terá de atuar para cumprir as metas voluntárias assumidas no quadro do Acordo de Paris (2015). O Brasil se comprometeu a cortar, até 2030, 43% da quantidade de gases do efeito estufa que emitia em 2005.

As medidas vão da redução do desmatamento à intensificação da pecuária bovina e à eficiência energética na indústria. O modelo do ministério indica que o impacto desses esforços não abateria mais que 0,1 ponto percentual, em média, do PIB esperado a cada ano.

Vários países já fazem essa contabilidade e passam a encarar a mitigação do aquecimento global como oportunidade, não como entrave ao crescimento econômico.

É o caso da China, que destina investimentos vultosos para se tornar líder em energia limpa, como a solar e a eólica. Além disso, há o bônus doméstico de refrear o grave problema de saúde em suas cidades poluídas pela queima de carvão.

Os Estados Unidos, sob Donald Trump, seguem no sentido oposto. O presidente republicano promete mais empregos e independência energética para seu país suspendendo os entraves erguidos pelo antecessor democrata, Barack Obama, às usinas termelétricas movidas a carvão.

Eis aí um exemplo a não seguir.
 

 

 

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