O mercado nunca está errado

Por Arnaldo Luiz Corrêa – Diretor da Archer Consulting

Extraído do portal Archer Consulting – 10/12/17

Há muitos anos quando eu trabalhava numa multinacional, um colega de outro departamento carregava uma enorme posição comprada de determinada commodity. Estava tomando um baile do mercado. Ele comprava e o mercado caia. Ele vendia e o mercado subia. Era realmente uma daquelas fases complicadas para esse pobre trader.

No meio do desabafo naquela mesa de bar, numa sexta-feira chuvosa após o expediente, num dia em que uma vez mais o mercado lhe dera outra surra, ele saiu-se com essa: “esse mercado está errado”. Impossível não se lembrar daquela piada do sujeito que descia a serra a caminho do mar pela contramão e no rádio o locutor dava o alerta: “atenção motorista, tem um maluco na estrada na contramão”, ao que ele respondeu em voz alta para si mesmo: “um não, são vários”.

Esse introito serve para ilustrar o que está acontecendo com o mercado de açúcar hoje, depois desse banho de sangue que vimos na semana. O vencimento março/2018 encerrou a semana a 14.05 centavos de dólar por libra-peso, uma queda brutal de 93 pontos na semana, ou mais de 20 dólares por tonelada. Todos os demais vencimentos tiveram desempenho parecido, com quedas entre 23 e 97 pontos, ou seja, um encolhimento nos preços de 5 a 21 dólares por tonelada.

Certamente, o mercado não está errado. Errados podem estar os fundos que entraram muito cedo numa posição comprada, logo após terem zerado suas vendas e embolsado um lucro estimado em mais de 400 milhões de dólares, num mercado que carece de sustentação. Entraram comprados e tão logo o mercado caiu por razões exógenas, vomitaram de volta a posição comprada pressionando o mercado a atraindo novos vendedores para ela.

A aderência que o mercado de açúcar ganhou com o mercado do petróleo por conta da política de formação de preços introduzida pela Petrobras, como dissemos aqui há algumas semanas, traz maior volatilidade ao preço por ser mais um fator de influência na curva de preços.

Os relatórios sobre as perspectivas do petróleo que chegaram ao mercado, em sua maioria, apontam para preços mais baixos, dentro o patamar de 50 a 60 dólares por barril, embora alguns poucos analistas acreditam que estamos no fim deste ciclo e entrando num outro de 60 a 70 dólares por barril.

A baixa volatilidade do açúcar nas últimas semanas levava-nos a crer que o mercado estava satisfeito com o intervalo de preços entre 14.50 e 15.50 centavos de dólar por libra-peso. O preço médio do fechamento de NY para novembro foi de 14.97 centavos de dólar por libra-peso e o nosso modelo de previsão de preços, informado aos clientes, aponta que dezembro teria uma queda para 14.61 e o janeiro também (14.20). A média de dezembro até agora é de 14,63 centavos de dólar por libra-peso.

Caso o mercado se mantenha nesse novo patamar de 14 centavos de dólar por libra-peso, acredito que vamos apenas represar a enorme diferença que existe hoje entre o preço do etanol e do açúcar, acelerando a produção de etanol no início da próxima safra e piorando bastante a disponibilidade de açúcar para o próximo ano. Seriam os 14 centavos de dólar por libra-peso uma ótima oportunidade de compra? Eu diria que sim.

O Brasil exportou até novembro/2017, no acumulado de 12 meses, 29.4 milhões de toneladas de açúcar, quantidade que contrasta com a fraqueza que temos visto ao longo dos meses no mercado spot, mas que de certa forma explica: a grande massa de açúcar negociado este ano estava vinculada a contratos de longo prazo das usinas com as tradings.

Quem deixou para vender no spot, ou seja, na última hora, teve que dar maiores descontos para negociar o produto. Por outro lado, o encurtamento dos descontos no mercado FOB nas últimas semanas demonstra que começa a haver preocupação em relação à disponibilidade do produto para o início da próxima safra.

Um grupo de produtores de cana responsável por aproximadamente 10% do volume de cana negociado no país, quer reivindicar uma remuneração adicional àquela que já recebe pela cana por meio do Consecana.

A proposta do grupo é que um prêmio seja pago pelas usinas para corrigir a defasagem, segundo eles, do atual modelo que calcula o valor devido pelas usinas ao produto entregue. Todo mundo sabe que o Consecana leva em consideração o volume de ATR extraída após o processamento da cana entregue pelo produtor às usinas. Seria justa essa reivindicação?

Exatamente há um ano, no comentário semanal de 25 de novembro de 2016, cujo título era “Hora de Rever o Consecana”, argumentávamos que o setor necessitava urgentemente promover uma ampla discussão a respeito da eficiência do modelo de apreçamento do Consecana. Muito embora, por muito tempo, o Consecana pareceu refletir os anseios do setor e definir de maneira justa a remuneração dos fornecedores de cana, era incontestável que em determinados momentos – como aquele em que vivíamos no último trimestre de 2016 - o modelo prejudicava igualmente às usinas e aos próprios fornecedores de cana.

Usei como exemplo que a política de risco da maioria das usinas recomenda que o percentual correspondente à produção de açúcar oriundo de cana de terceiros não seja fixado. O risco de a usina fixar cana de terceiros se explica pois caso o mercado continue em ascensão, o custo mais alto pela cana que terá que pagar ao fornecedor poderá afetar a rentabilidade do produto final já fixado (açúcar).

Argumentei enfaticamente que seguindo essa orientação, a usina assistiu ao contrato de maio/2017 negociar a 23.00 centavos de dólar por libra-peso sem fixar nada da parcela correspondente à cana de fornecedor. Essa “lei imutável” que existe na maioria das usinas de não fixar cana de terceiros por achar que ela tem um hedge natural é uma falácia. Ambos perderam. A usina que não fixou e, consequentemente, o fornecedor de cana. Fornecedores e usina precisam buscar modelos em que ambos possam ganhar num mercado ascendente (que foi o caso no ano passado).

Portanto, embora a reivindicação dos produtores vá fazer com que eles – finalmente – entendam as imperfeições do sistema e possam sentar-se à mesa de negociação buscando critérios mais justos, querer um prêmio por algo que as usinas efetivamente não obtiveram é querer socializar o prejuízo.

O ideal seria que houvesse um contrato futuro de ATR na Bolsa em que cada um pudesse fixar seu preço quando o mercado lhe permitisse. Como isso é utópico no estágio atual, quem sabe poder-se-ia estudar um mecanismo em que o fornecedor pudesse fixar parcialmente o preço da cana usando o mercado futuro de açúcar ou petróleo (para etanol).

O que dá para concordar é que há muito alertamos aqui que o Consecana precisava ser revisto. Chegou o momento.

 

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