O refino do futuro

Por Marcelo Gauto, Químico industrial e especialista em petróleo e gás

Extraído do epbr, 16/11  

A Total anunciou que planeja cessar o processamento de petróleo na Refinaria de Grandpuits, Paris, em março de 2021, dando início a adaptações na unidade para produção de combustíveis renováveis, reciclagem de plásticos e bioplásticos até 2024.

A centenária Marathon Petroleum planeja fechar de forma permanente duas das suas refinarias nos EUA, por conta da menor demanda por combustíveis. Somadas, as duas unidades têm capacidade de 190 kbpd. A maior delas tem capacidade de 161 kbpd e poderá se tornar no futuro uma planta de produção de diesel renovável, produzido a partir de resíduos de óleo de cozinha.

A BP anunciou que fechará a maior refinaria em operação da Austrália até metade de 2021, por conta das margens negativas de refino. Será a quinta refinaria a ser fechada em uma década no país, onde restarão apenas três operando. A importação de derivados da Ásia vem substituindo o refino doméstico por lá.

A Shell, por sua vez, declarou que reduzirá sua participação em refino, ficando com 6 das suas 14 refinarias até 2025. As seis refinarias que ficarão no portfólio da empresa terão maior integração com a petroquímica, produção de biocombustíveis e geração de hidrogênio.

Estes são alguns exemplos da transição já em curso que afetam o mercado refinador.

Ninguém sabe ao certo quando a demanda por petróleo chegará enfim ao seu máximo. De qualquer forma, esse movimento já dá sinais de que está a caminho, em estágio mais avançado em alguns mercados. Os elos da cadeia de valor do setor de óleo e gás reagirão de formas distintas as transformações que em curso.

No upstream, veremos uma redução natural dos investimentos, aportes mais seletivos, em ativos de menor risco exploratório, que acompanharão a queda de demanda quando ela efetivamente vier a ocorrer.

No downstream, contudo, a transição será mais difícil, por envolver mudanças no processamento, tancagem e perfil de derivados exigidos nas próximas décadas.

Com custos elevados e margens estreitas, o segmento terá que se reinventar.

A indústria de refino de petróleo bruto enfrentará cada vez mais desafios:  redução do consumo de combustíveis fósseis, exigência por combustíveis mais eficientes e limpos, flexibilidade e adaptação tecnológica para operar com um mix de matérias-primas diferentes, incluindo biomassa e fontes de carbono renováveis.

Consumir menos recursos, como água e energia, reduzir e mitigar as emissões de carbono será fundamental para os refinadores que quiserem sobreviver ao que vem pela frente.

Em relação ao processamento de cru, o foco crescente para se reduzir o teor de enxofre dos combustíveis líquidos garantirá que o papel da dessulfurização nas refinarias aumenta em importância. A médio e longo prazos, todo diesel deverá ser convertido a S10, por exemplo.

O hidrocraqueamento de resíduos, ainda não utilizado no Brasil, mas que poderá se fazer presente no polo GasLub da Petrobras, provavelmente será uma tecnologia de processamento indispensável para o refino moderno de petróleo bruto e petroquímico, devido à sua flexibilidade para matérias-primas e alta qualidade dos produtos obtidos. Particularmente, nafta, querosene de aviação, diesel e óleo básico para lubrificante de alta qualidade podem ser produzidos por meio dessa tecnologia.

Ao longo do século passado, a indústria de refino foi inovadora e capaz de desenvolver novos processos na busca por eficiência. Essa tendência vai continuar nas próximas décadas e as refinarias serão cada vez mais avançadas tecnologicamente. No entanto, a evolução da refinaria do futuro não ficará estritamente confinada aos processos de petróleo bruto.

A inserção de bioenergéticos no mix de insumos se fará presente em escala crescente, a exemplo do coprocessamento de óleo vegetal nas unidades de hidrotratamento para produção do “diesel verde”. BioQav será uma exigência no país a partir de 2027, em uma segunda demonstração de como os bioprodutos estarão presentes neste mercado.

A combinação do maior uso do gás natural com rotas de gaseificação de hidrocarbonetos, como por Fischer-Tropsch para produção de gás de síntese, aproximaria as refinarias de um complexo petroquímico.

Este é um avanço no sentido de se ter uma unidade capaz não apenas de suprir os produtos refinados tradicionais, mas também atender a especificações muito mais severas e intermediários petroquímicos como olefinas, aromáticos, hidrogênio e metanol, por exemplo, num mesmo site.

A integração refino-petroquímica tem sido uma constante nas novas refinarias erguidas na Ásia e Oriente Médio, de olho na transição energética dos mercados vizinhos da Europa e Oceania.

A digitalização crescente, os algoritmos cada vez mais sofisticados para controle avançado de processos, a inteligência artificial para predição de falhas, o uso de drones para inspeção de equipamentos, o Data Science e outras tecnologias exponenciais ditam o tom da transformação tecnológica em curso. Unidades de refino cada vez mais autônomas, seguras e digitais. Quem ficar fora disso, terá grande chance de não sobreviver.

Uma típica refinaria daqui 30 ou 40 anos no Brasil, que reúna as qualidades acima explicitadas, estará localizada provavelmente em uma das unidades existentes hoje no país, porque as condições econômicas e ambientais tornarão difícil construir uma nova refinaria de tamanha complexidade em outro local. Muitos processos de refino existentes ainda estarão em uso, o conceito-base será o mesmo, mas serão mais eficientes e mais tecnologicamente avançados.

As refinarias de nicho

As pequenas refinarias ocupam espaços ou nichos específicos de mercado, estando normalmente longe dos grandes refinadores, mas perto do fornecimento de matéria-prima e dos consumidores de derivados. A logística é o principal trunfo dessas unidades. Só que elas também terão que se adaptar. Flexibilidade, associada a alguma vantagem logística será ainda mais primordial.

Em um ambiente de competitividade crescente, será preciso buscar diferenciais e alternativas. Pequenas unidades costumam utilizar esquemas de refino de baixa complexidade, o que lhes exige matérias-primas de melhor qualidade, mais caras. Essas unidades, apesar de não terem escala, são, talvez, as mais aptas a se moldarem mais rapidamente para o cenário que se vislumbra.

A associação de insumos fósseis e renováveis, do uso de biomassa, entre outros, para produção de bioenergéticos e especialidades químicas são rotas de fuga para os pequenos refinadores. A integração com as fontes alternativas, com consumo de energia vinda de painéis solares, por exemplo, é mais provável de ocorrer numa pequena planta de refino do que numa grande e complexa unidade.

Para além da transição dos combustíveis

Soma-se à transição a utilização de motores mais eficientes e o uso crescente de veículos elétricos e movidos a biocombustíveis, que alterarão o consumo de refinados de petróleo no país a cada ano. Adicionalmente, o comportamento do consumidor deverá mudar também diante das novas tecnologias que provocam alterações na mobilidade urbana, nas rotinas de trabalho e na forma como produzimos e consumimos energia e os combustíveis em especial.

É neste contexto de exigência por maior eficiência, flexibilidade, rápido avanço tecnológico e transição do mercado de derivados que os refinadores no Brasil deverão conviver. Os novos empreendimentos, bem como aqueles já existentes, terão que se adaptar a esta realidade. Além disso, a refinaria do futuro terá quer ser mais bio e menos fóssil.

Possivelmente, algumas unidades, especialmente as mais antigas, não sobrevivam a este ambiente, à semelhança do que ocorre em mercados mais maduros do que o nosso, mas isso é conversa para mais de uma década a frente. De qualquer forma, não dá para esperar para começar a se adaptar amanhã, o futuro começa hoje. Ao trabalho, então.

 

 

 

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