Por um crescimento mais sustentável

Por Robert Carlos Lyra – Diretor da Delta Sucroenergia

Extraído da Revista Opiniões – Março/2018

O setor sucroenergético é, essencialmente, fornecedor de commodities ao mercado, que tem, na homogeneidade do produto, sua característica principal. Por isso, há um risco associado, principalmente, pela variação de preços provocados pela condição de oferta e de demanda global ou pelos fluxos de capitais especulativos nos mercados financeiros onde esses preços são formados.

Quando se fala em commodities de origem agrícola, há também um risco climático, que eleva ainda mais a imprevisibilidade do mercado. Assim, dentro desse cenário, a busca de excelência na gestão do negócio é de extrema importância para minimizar o efeito de variáveis, de certa forma, incontroláveis.

Pensando no dia a dia do negócio do setor sucroenergético, é essencial, para um bom resultado, apresentar algumas condições básicas de gestão. Inicialmente, é preciso ter um caixa robusto e uma boa política de risco, para minimizar os efeitos das flutuações de preços. Muitas usinas entraram em colapso financeiro nos últimos anos por não trabalharem ou não conseguirem manter esses pilares na gestão.

Uma boa condição de caixa propicia também um melhor planejamento do mix de produção e de vendas durante todo o ano, otimizando os resultados. Além disso, é importante utilizar a flexibilidade de produção que a cana-de-açúcar propicia, trabalhando com um maior portfólio de produtos, maximizando as oportunidades de cada mercado. Muitas usinas, mesmo durante a crise, se esforçaram com investimentos na diversificação da produção para produzirem os três produtos: açúcar, etanol e bioeletricidade, e hoje estão colhendo bons frutos.

Mais recentemente, a necessidade de profissionalização do setor e a elevação do risco setorial, em função do alto nível de endividamento, levou à implantação de modelos adequados de governança, essenciais para redução da percepção de risco da empresa por parte do mercado. Os efeitos não são apenas externos, uma boa governança otimiza também o resultado operacional, com regras claras de gestão, liderança, metas e agilidade das informações, auxiliando na busca do melhor resultado. Outro ponto, também mais recente, refere-se à área de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento).

A cultura da inovação, apesar de ser ainda incipiente no setor, será essencial para levá-lo ao futuro, sendo necessário ter um olhar especial sobre as novas tecnologias e os seus usos. A atividade canavieira passou por uma intensa mecanização nos últimos anos, novos sistemas produtivos estão sendo desenvolvidos, e novas variedades prometem revolucionar a cana-de-açúcar nos próximos anos.

Além disso, a nova revolução tecnológica, já realidade em toda a economia, traz excelentes oportunidades no campo da automação e da digitalização dos processos, gerando um universo de dados que podem auxiliar numa gestão mais eficiente. É preciso produzir com mais eficiência ao menor custo possível. Os desafios são imensos, cada empresa possui suas particularidades, mas não se pode mais pensar o futuro do setor sem uma produção eficiente e competitiva.

Contudo, apesar de essencial, ser competitivo da porteira para dentro pode não trazer o resultado sustentável tão necessário à manutenção nesse mercado. Há uma série de desafios fora da indústria ou da área de atuação geográfica da unidade produtora, que precisa ser considerada estratégica ao negócio do setor para seguir em frente. São desafios de ordem institucional e de mercado que precisam continuar a fazer parte da agenda setorial.

A diversificação da produção do setor possibilitou trabalhar em diversos mercados com peculiaridades bem distintas. O açúcar trouxe o segmento até aqui, é um produto que está enraizado na cultura do brasileiro, uma das mais diversificadas e saborosas culinárias do mundo. O País exerce e continuará exercendo a posição de liderança mundial, mas é preciso olhar os ganhos de competitividade de alguns países concorrentes, que servem como alerta e incentivo à nossa produção.

Além disso, a diplomacia brasileira, em parceria com o setor privado, precisa continuar a fazer o trabalho de defesa e abertura de novos mercados. Em muitos países, há uma tendência forte à preferência do açúcar de cana em detrimento de outras formas de adoçantes.

Não se pode esquecer que, praticamente, um terço do açúcar produzido é vendido no mercado doméstico. O Brasil é um dos poucos países que têm o preço do produto interno no mesmo patamar do mundial, um insumo importante e a baixo custo para a indústria alimentícia brasileira, além dos diversos outros usos. Por outro lado, não se pode negligenciar a crítica e a vilanização que ocorre hoje com o açúcar, sendo necessário enfrentar o problema e mostrar também seus benefícios e as incertezas acerca dos seus substitutos.

A bioeletricidade recebeu um forte impulso a partir de 2001 e possui importância imensa na diversificação, planejamento, resultado financeiro e eficiência energética das empresas. Há ainda um grande potencial a ser explorado; muitos produtores não se conectaram ao sistema elétrico, e a grande dispersão dos índices de produção por tonelada de cana demonstra que há um potencial ainda muito grande a ser explorado pelas empresas.

O mecanismo de leilão se mostrou eficaz no planejamento de implantação ou repotenciação das plantas produtoras, mostrando que, quando é apresentado um preço justo, o setor responde rapidamente. O desenvolvimento da produção e do uso do etanol no País possibilitou o setor sucroenergético brasileiro ser mais competitivo perante os concorrentes no mundo, além do fator importante para a segurança energética brasileira.

Com a acentuação das mudanças climáticas no planeta e o aumento da preocupação ambiental, os biocombustíveis ganharam importância em substituição ao petróleo como mecanismo de mitigação de emissão de gases de efeito estufa. Contudo, o histórico de comercialização do produto ainda impede que as empresas consigam transformar essa capacidade de descarbonização em receita adicional e em incentivo à sua produção.

Nos últimos anos, diversos estados produtores, em reconhecimento ao forte desenvolvimento econômico trazido pelo setor às regiões produtoras, implantaram políticas públicas que possibilitaram o aumento do consumo de etanol no mercado interno, alavancadas pelo sucesso das vendas dos veículos flex. Contudo, o etanol que, na média dos últimos anos, representou mais da metade do mix de produção setorial, ainda padecia de uma política que trouxesse uma maior previsibilidade ao mercado.

O recém-aprovado programa RenovaBio promete trazer maior previsibilidade, ancorado na capacidade dos biocombustíveis de descarbonizar a matriz de transporte do Brasil, ajudando o País a cumprir os compromissos assumidos no acordo climático de Paris. Esses são cenários que mexem com a expectativa dos players do setor.

Os desafios são inúmeros e, por esse motivo, é preciso buscar, a cada dia mais, competitividade. O setor lida com concorrentes ágeis e de indústrias influenciadoras e definidoras de tendências. Não é fácil concorrer com a indústria do petróleo, ou mesmo trabalhar com mercados fechados e altamente protecionistas. Outras formas de produção têm ganhado relevância, o etanol de milho americano, ou mesmo o brasileiro, e o açúcar de beterraba europeu são exemplos.

Na produção de energia, as fornecedoras de solar e eólica têm ganhado relevância no discurso e na concorrência nos leilões. A história do caro elétrico ganha força no mundo, mas é preciso torná-la transparente. A história do setor sucroenergético no Brasil é extensa, mostra a resiliência e a capacidade de adaptação aos novos desafios e as tendências da economia. Aumentar a competitividade e melhorar a gestão das empresas é condição necessária frente à nova realidade. O sucesso do RenovaBio pode dar um grande impulso nessa geração.

 

 

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