Precisamos do carro exclusivamente elétrico?

Por Douglas Mendonça | Para a Autoesporte

O Salão do Automóvel de São Paulo, como sempre, foi uma tremenda mostra do que a tecnologia atual é capaz de fazer para movimentar os carros e, até, se o motorista será imprescindível na sua condução.

As grandes e principais marcas mundiais mostraram soluções interessantes de tecnologias para propulsão de veículos, visando a redução de consumo dos motores a combustão. Fomos apresentados a veículos híbridos, no qual a propulsão é feita simultaneamente por motores elétricos e movidos a combustível.

Havia também os chamados de híbridos leves, mas que possuem um motor auxiliar a combustão para o caso de ausência de recarga. E, finalmente, aqueles chamados de elétricos puros, que se destacam pela completa ausência de um motor convencional. Todos muito interessantes e com um avançado desenvolvimento tecnológico.

Mas, foi especialmente curioso o número de fabricantes que mostraram os carros puramente elétricos, aqueles que dependem totalmente de uma tomada de eletricidade e um bom tempo para carregar suas baterias.

Chineses, coreanos, japoneses, americanos e europeus mostraram ao público modelos de sua produção totalmente elétricos, prontinhos para venda. Nesse ponto, vem a pergunta: aqui no Brasil, com todas as suas particularidades geográficas, precisamos mesmo de carros elétricos?

Na minha opinião, acho que não! Temos em nosso país soluções energéticas bem mais interessantes, sustentáveis e baratas.

Há regiões no mundo em que o carro elétrico é realmente fundamental, principalmente aquelas em que os níveis de poluição atmosférica são difíceis de serem controlados e que o preço dos combustíveis fósseis seja elevado. Esse é o caso, por exemplo, dos grandes centros urbanos europeus e das principais cidades asiáticas, como Tóquio e Pequim. Aqui no Brasil, somente as nossas grandes e congestionadas cidades seriam um bom habitat para um carro elétrico.

Eles são limitados na sua autonomia, demoram além do esperado para recarregar e exigem uma rede de recarga previamente definida. Não que a tecnologia elétrica seja ruim, pelo contrário, mas um motor a combustão melhoraria muito a sua liberdade de escolha do ir e vir.

Gostaria de lembrar também que o carro elétrico tem um grande vilão escondido atrás de si e não é aquele "anjinho de sustentabilidade" que todos pensam: as baterias de lítio consomem recursos da natureza e não duram a vida toda, pois em menos de 100 mil quilômetros precisam ser substituídas a um preço não muito aprazível para o proprietário.

Sob esse aspecto, os híbridos e os elétricos com motor auxiliar também vão padecer do chamado "mal da bateria". Além disso, a indústria terá que dar um jeito de reciclar todas as baterias que não funcionam mais para que não tenhamos outro ponto de poluição ambiental.

Mesmo assim, gosto da solução que coloca para funcionar em harmonia um eficiente motor de combustão interna e outros elétricos. Com o avanço da eletrônica, fica fácil comandar essa magia.

No Brasil, nossa indústria do etanol é certamente a mais evoluída do mundo. Aqui, se consegue a maior produção de álcool por alqueire de cana plantada. Nos Estados Unidos, o outro grande produtor de álcool, a performance por alqueire é menor, pois eles retiram o etanol do milho e não da cana, como nós.

Em nosso país, produzimos no ano passado 27,9 bilhões de litros de etanol. Neste ano, a meta é de produzir 29,2 bilhões de litros e, até 2030, 50 bilhões de litros de álcool, impactando no mercado de trabalho com mais de 1 milhão de empregos.

Carros que tenham motores a combustão que funcionem com etanol, trabalhando em conjunto com os silenciosos e eficientes motores elétricos, podem fazer um conjunto que auxilie o consumidor, pelo baixo preço do etanol, boa eficiência dos motores elétricos e também ao país, gerando empregos, renda e arrecadação de impostos.

Vamos lembrar também a sustentabilidade do etanol. Oriundo da cana, o CO2 e o CO gerados em sua combustão são absorvidos pela própria plantação de cana, trazendo um saudável equilíbrio no seu processo de produção e queima.

Então, claro, é preciso que os híbridos ou elétricos que possuem motores de combustão auxiliares, como os BMW i3 e i8, tenham seus motores recalibrados para utilização de etanol, formando, aí sim, uma dupla bacana quando o assunto é a sustentabilidade ambiental.

O único problema, nesse caso, ainda é do descarte das baterias de lítio, que a alta tecnologia da indústria automobilística deverá resolver. No entanto, por ora, ainda não há uma solução que dê conta do problema, caso a combustão seja mesmo banida.

Valor Econômico – 30/11/18

 

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