Preço da gasolina deve dobrar para cobrir danos sociais do petróleo

Por Leão Serva - jornalista e escritor. Ex-secretário de Redação da Folha São Paulo

Extraído da Folha de São Paulo – 31/07/17

Você se irritou com a alta da gasolina depois dos aumentos de impostos? Pois vá se acostumando. O preço nos próximos anos deverá subir muito, à medida que forem repassados aos consumidores todos os custos sociais dos combustíveis fósseis, como consequência do Acordo de Paris contra o aquecimento global. Para cobrir os danos do petróleo e do carvão para a saúde pública e o meio ambiente, a conta nas bombas deve pelo menos dobrar.

Esta semana, a Aliança Para Saúde e o Ambiente (a sigla em inglês é Heal), uma organização europeia sem fins lucrativos, divulgou uma estimativa dos incentivos públicos que os países dão para exploração e consumo do petróleo: só as nações do chamado G20 (as vinte maiores economias do planeta) destinam por ano US$ 450 bilhões, quando desde 2009 acordaram cortar todos os subsídios.

O mesmo estudo, chamado “Como o fim dos incentivos pode beneficiar nossa saúde”, mostra que os custos desses governos com tratamento de doenças causadas pela poluição são de US$ 2,8 bilhões –seis vezes mais.

Há um grande esforço em todo o mundo para estimar o chamado “custo social do carbono”, exatamente para poder repassar às cadeias produtivas e aos consumidores toda a conta dos combustíveis e mais os danos que eles causam. Nos Estados Unidos, uma estimativa já é adotada oficialmente em cálculos de políticas públicas: US$ 40 (R$ 130) por tonelada de CO2 lançada na atmosfera.

Ao encher o tanque, o consumidor não sabe quantos quilos de dióxido de carbono vai lançar na atmosfera. Pois veja só: 400 litros de gasolina resultam em uma tonelada de dióxido de carbono. São mais ou menos oito tanques de carros de passeio, que deveriam custar pelo menos R$ 16,50 a mais cada um em “custo social do carbono”. São R$ 0,33 por litro de gasolina (10% a mais, aproximadamente).

Assustou? Pois essa é uma estimativa conservadora. Os criadores dessa medida não levaram em conta danos provocados pelo aquecimento global, cujo custo é polêmico: a destruição da pesca, o aumento de epidemias, o aumento dos incêndios na agricultura e nas florestas, a elevação dos oceanos e os custos sociais das ondas de imigração que serão causadas pelas catástrofes ambientais.

Um pesquisador norte-americano chamado Drew Shindell resolveu ampliar o cálculo, incluindo todos os custos que ficaram de fora e os outros poluentes químicos além do CO2. Pesquisador de meio ambiente da Universidade de Duke (EUA) com passagem pela agência espacial Nasa, ele criou o conceito de “custo social dos poluentes na atmosfera”. Em estudo publicado em 2015, sugere que o custo adicional deveria ser de US$ 1 (R$ 3,30) por litro de gasolina e de US$ 1,30 (R$ 4,20) por litro de diesel. Significa dobrar o preço dos combustíveis fósseis.

Percebe agora como foi errado manter artificialmente baixos os preços dos combustíveis no Brasil durante os governos Lula e Dilma? Esse mimo ao consumo de petróleo e à indústria automobilística foi pago com dinheiro de todos os brasileiros (mesmo quem não usa carro) e custou, além da bancarrota da Petrobras, um grande aumento nas doenças relacionadas à poluição.

Pronto: se você é viciado em carro, pode espernear. Sua conta vai sair cada vez mais cara nos próximos anos. E isso é bom para o mundo.

 

 

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