Produtividade agrícola 4.0: o futuro chegou

 

Por Carlos Daniel Berro Filho, Diretor Agrícola Corporativo da Biosev

Extraído da Revista Opniniões (nov/janeiro 2021)

Quando analisamos a evolução do sistema de produção agrícola, podemos perceber claramente um grande salto na adoção de novas tecnologias. Esse processo vem ganhando força pela soma de vários fatores que, aqui, iremos discutir, e esse salto tem proporcionado uma nova realidade, a inteligência artificial trouxe consigo uma capacidade de processar informações potencializadas, ultrapassando, e muito, os limites da cognição humana. A velocidade de correção frente a um desvio diminuiu drasticamente, pois a informação está em tempo real,
 

e as produtividades agrícolas e operacionais estão atingindo números cada vez melhores e de forma acelerada. A onda tecnológica tem ganhado força principalmente com a entrada da internet no campo. Essa ferramenta, associada às possibilidades de mobilidade hoje existente, mudou muito a dinâmica de produção na lavoura. 
 

Hoje, o técnico percorre o campo com tablet em mãos, se guiando por mapas temáticos que, em um click, fornecem todas as informações da fazenda e do talhão. Ao identificar algum desvio, o técnico bate uma foto georreferenciada que, automaticamente, fica armazenada em nuvem. Assim, o gerente que antes tinha pela manhã seus relatórios impressos com os fechamentos do dia anterior, hoje também tem em seu celular a atualização, em tempo real, de todos os processos em detalhes: por fazenda, por frente de trabalho e por equipamento, por exemplo.

Dessa forma, o gestor pode, inclusive, se comunicar diretamente com o determinado equipamento e operador. Somada a essa dinâmica, toda a informação gerada, de produção, dos rendimentos operacionais, dos indicadores de qualidade do processo, fotos, gráficos, dentre outros, alimentam continuamente uma grande base de dados, que, ao se aplicar softwares de inteligência, torna possível identificar várias correlações que apontam para tendências. E, estas, por sua vez, orientam o usuário para a melhor tomada de decisão, que pode inclusive ser programada, caso exista o interesse, para ser realizada automaticamente pelo sistema de inteligência.


Em paralelo a essa crescente, e preenchendo papel importante nesse cenário, surgem as startups: empresas versáteis, com grande capacidade de personalizar soluções para o cliente e que, com isso, conseguem criar parcerias ganha-ganha no desenvolvimento de ferramentas. São muitos os exemplos que podemos citar: ferramenta de monitoramento climático, prevenção e controle de incêndios, evolução da lavoura, gestão de insumos, experimentação, dentre outros. Há, hoje, uma infinidade de temas e possibilidades de associar base de dados, inteligência, softwares, satélites, sensores e outros.
 

As ferramentas de inteligência vêm ocupando, cada vez mais, espaço dentro da cadeia como um todo. No melhoramento genético, por exemplo, é imprescindível o uso de softwares com inteligência para determinar os cruzamentos, as possíveis combinações favoráveis, ou não.

Na produção agrícola, o planejamento, ao se definirem as variedades e insumos a serem utilizados, e os softwares buscam as combinações positivas de resultado dentro do banco de dados e trazem, de forma otimizada, quais as melhores possibilidades para alocar as variedades, qual insumo aplicar em determinada fazenda, qual o dimensionamento de equipamentos, dentre outros. A verdade é que, hoje, o técnico não inicia mais um planejamento do zero, em uma planilha em branco.

Hoje, ele parte de um modelo já desenhado por um sistema inteligente e, então, sobre esse plano, ele faz os ajustes e as mudanças com base no seu conhecimento. O conhecimento técnico, inclusive, é muito importante, mas, muitas vezes, devido à menor capacidade de processamento de informações da mente humana, quando comparado ao de um computador, pode ser insuficiente para reunir todas as variáveis que impactam naquela decisão. Indo sentido às operações agrícolas, ao observarmos o painel de um trator, de uma colhedora ou de outro equipamento, será possível ter acesso a um raio x do que está acontecendo com a máquina: seus rendimentos, consumos, possíveis oscilações etc. 


Toda essa informação, automaticamente transferida para uma central, permite que sistemas centralizados de controle tenham uma visão ampla do todo, podendo atuar corretivamente, em tempo real. Não é mais preciso esperar o fechamento do dia para ter a visão se algum equipamento não está desempenhando normalmente ou seu consumo de combustível está fora dos padrões. Rapidamente, o sistema, com sua inteligência, detecta essa variação fora do padrão, e a central de controle pode atuar, juntamente com a operação, na mesma hora. 
 

O transporte de cana também é um bom exemplo de adoção tecnológica. O motorista hoje está mais seguro, pois sistemas detectam se está fatigado, a rastreabilidade da matéria-prima ocorre de forma automatizada e, em tempo real, até mesmo a calibração dos seus pneus pode ser automaticamente monitorada.
 

Para tanto, dois pontos são de suma importância para que todas essas novas possibilidades possam ser absorvidas e bem aproveitadas. Primeiramente, para cada processo de adoção de uma nova ferramenta, seja um novo software, um novo sensor, um aplicativo, ou um sistema de gerenciamento inteligente, é muito importante ser feito um trabalho de desenvolvimento interno, no qual uma equipe bem definida ficará à frente do projeto, na sua concepção, adoção, implementação e conclusões finais. 

Esse modelo é importante, pois, caso não seja tratado de forma organizada, corre-se o risco de se perder em meio a tantas soluções e não conseguir extrair de cada uma delas o que realmente tem a oferecer. Segundo ponto: impossível falar de adoção tecnológica, de inteligência na área agrícola sem falarmos de capacitação. Esses modelos inteligentes são, muitas vezes, intuitivos, e as novas gerações possuem uma habilidade muito grande de aprender rapidamente como utilizá-las. No entanto, sabemos que, para conseguir operar bem essa gama de ferramentas, é importante que as equipes passem por treinamentos, tenham o conhecimento das funcionalidades, entendam a importância de sua utilização e consigam, assim, traduzir tudo em resultado.
 

A percepção é de que ainda temos muito para percorrer, em todas as oportunidades que os sistemas de inteligência aplicados na área agrícola podem oferecer. Desde a academia, é importante que a formação dos futuros profissionais tenha esse perfil, pois a produção agrícola mudou. A conectividade e a mobilidade no campo deram dinamismo ao processo, e os desvios são rapidamente identificados, os ganhos são cada vez maiores, as decisões, muitas vezes, são tomadas de forma automática, e o profissional que souber jogar a favor terá mais tempo para planejar e pensar nas estratégias.

Esse tempo, que no passado muito era usado para gerar informações, hoje está na mão. O conhecimento técnico, sempre importante, alimentará os sistemas, que irão devolver para o usuário, de forma quase intuitiva, a melhor combinação e o melhor cenário. O profissional vai aprender a confiar, cada vez mais, nas ferramentas, delegando muitas decisões ao que o sistema inteligente definir, de forma automática, será um aprendizado contínuo, de um futuro que chegou.

 

 

Relacionadas