Quando chove, chove cântaros

Arnaldo Luiz Corrêa – Diretor Archer Consulting

Artigo extraído do Portal UDOP  em 05/12/2016

 

De repente não mais que de repente, como diria o poeta, os altistas sumiram de vista e todo mundo virou baixista, de repente. E como é comum em situações em que uma mudança brusca de comportamento e humores no mercado ocorre, quando chove, chove cântaros. Ou, no popular, desgraça pouca é bobagem.

Todas as notícias baixistas foram jogadas no ventilador espalhando incertezas para todos os gostos. E o mercado futuro de açúcar em NY, nesta sexta-feira, encerrou com o vencimento março/2017 a 19.12 centavos de dólar por libra-peso, uma baixa de 72 pontos na semana, quase 16 dólares por tonelada, representando ainda uma queda desde o início de outubro, quando alcançou a máxima de 23.90 centavos de dólar por libra-peso, de exatos 20%.

Agora, o mercado comenta que a Índia vai produzir mais de 29 milhões de toneladas de açúcar na safra 2017/2018 que se inicia em outubro do ano que vem. O que é fantástico em termos de previsão é que não conseguimos, aqui no Centro-Sul, ter uma ideia razoavelmente clara de quanto será a produção de açúcar no ano que vem, que para nós se inicia seis meses antes, apesar de contarmos com apenas 78.000 fornecedores de cana. Mas, com a Índia, que tem mais de 40 milhões de fornecedores, esse número é super fácil de mensurar. É só ter boa vontade. É óbvio que estou sendo irônico.

Mercados exageram na alta e na baixa. Há alguns meses quando NY negociava próximo dos 12.50 centavos de dólar por libra-peso disséramos que este era um valor exageradamente baixo e apontávamos que - baseados na análise fundamentalista do mercado - o açúcar iria negociar no último trimestre de 2016 entre 18 e 18.50 centavos de dólar por libra-peso. Ninguém acreditou.

Em julho, observamos que faria sentido para as usinas comprar um put spread financiando o mesmo com a venda de uma call (opção de compra) de 22-23 centavos de dólar por libra-peso de preço de exercício. Teria dado um excelente resultado com a queda do mercado.

Todo mundo já passou por aquele sentimento na vida que, em determinada situação, preferia estar errado e ser feliz a estar certo e ser triste. Pois é, repetimos à exaustão em nossos comentários semanais ao longo deste ano (na verdade, desde o final do ano passado), que as usinas deveriam focar na fixação de preços em reais por tonelada visto que os níveis observados eram os mais altos da história além de propiciarem uma enorme rentabilidade em face ao custo de produção. Estávamos redondamente certos.

Para as usinas, no entanto, é bom que se frise, não há motivo para desânimo. O fechamento do primeiro mês de vencimento do contrato futuro de NY na sexta combinado com o fechamento do real a 3.4730, o maior valor desde meados de junho passado ainda equivale a R$ 1,525 por tonelada. Portanto, melhor não perder o foco. R$ 1,525 por tonelada é praticamente a média dos preços negociados de maio para cá. A média do ano é de R$ 1,432 por tonelada.

Além da notícia da Índia, também habitaram os noticiários o anúncio da Nestlé sobre a descoberta de um processo de redução de 40% da quantidade de açúcar usada no chocolate sem comprometer o paladar.

No contraponto desse turbilhão de notícias baixistas, existe uma notícia que não parece estar devidamente absorvida pelo mercado. A estimativa de produção de cana no Centro-Sul para a safra 2017/2018 gira em torno de 565-585 milhões de toneladas. No entanto, em conversa com um executivo ligado a uma empresa especializada na análise do canavial por imagens de satélite, ele demonstrou sua preocupação com o que pode ser a safra 2017/2018 pelas análises que efetuam dos dados recebidos preliminarmente. Ele aposta num volume de 540 milhões de toneladas apenas. Se isso se concretizasse, o Centro-Sul poderia ter uma queda na produção de açúcar de mais de um milhão de toneladas. A conferir.

A falta de notícias fundamentalistas positivas no açúcar, somada à liquidação implacável dos fundos e a desvalorização do real frente ao dólar formam os ingredientes perfeitos para que o mercado possa continuar a cair. Em especial que, na palavra dos especialistas, uma queda de 20% começa a configurar um mercado baixista. O fato é que os fundos ganharam muito dinheiro no açúcar e já estava na hora de colocar parte desse dinheiro no bolso.

O real se desvaloriza não apenas pelo cenário macro, ou seja, pela eleição de Trump e os efeitos que os planos de investimentos em infraestrutura do presidente eleito possam vir a acelerar o aumento da taxa de juros americana, mas principalmente pelo comportamento do Congresso Nacional, formado em grande parte por bandidos que insistem em enveredar pelo caminho da desfaçatez e aprovar medidas que aliviam a pena de seus malfeitos. Não é à toa que o Brasil figura em 4º lugar na lista dos países mais corruptos do mundo, segundo o Fórum Econômico Mundial, à frente da Venezuela, da Bolívia e do Chade. Difícil fazer negócios num ambiente tão repugnante como esse. O Brasil é o único país do mundo onde bandido quer fazer lei para colocar o juiz na cadeia.

 

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