Questão de confiança

Por Flávio Roscoe, Presidente da FIEMG

No exato momento em que os partidos políticos começam a definir os seus candidatos à presidência da República, ampliam-se as más notícias no campo da economia. Há menos de uma semana, divulgamos o ICEI – Índice de Confiança do Empresário Industrial – com queda de 0,4 ponto em relação a junho. É a segunda redução consecutiva e, ainda mais preocupante, vem acompanhada da constatação de que a descrença dos empresários continuará pelos próximos seis meses até o final do ano.

A falta de ânimo do empresariado industrial tem razões econômicas, mas também está estreitamente ligada ao cenário político e às muitas e grandes incertezas que ele gera. Na raiz dessa relação de desconfiança estão, ainda, os impactos da greve dos caminhoneiros que paralisou a economia por quase duas semanas, penalizando a população e reduzindo significativamente as perspectivas de crescimento do PIB – mineiro e brasileiro.

O que pesa mais, no entanto, é a forma vacilante e omissa com que as autoridades lidaram e continuam lidando com o movimento grevista no Executivo, no Legislativo e até no Judiciário. Quem paga a conta é a sociedade penalizada com o aumento dos impostos – a Cide, que elevou o preço dos combustíveis –, e com a substancial redução da alíquota do Reintegra, programa de incentivo às empresas exportadoras. A aprovação do “frete mínimo” no Congresso Nacional também penaliza a sociedade e o setor produtivo. Com a pressão desse frete, que na verdade eleva os preços ao máximo, haverá aumento no valor dos produtos, provocando redução do consumo, e, no limite, empresas terão que desempregar pessoas.

Também contribuem significativamente para minar a confiança do empresariado industrial as incertezas que rondam o processo de escolha de candidatos para as eleições de outubro próximo. A menos de três meses do pleito, a maioria dos partidos ainda não definiu os seus nomes para Assembleias estaduais, Câmara dos Deputados, Senado Federal, governos estaduais e, principalmente, para a presidência da República.

Para um país ainda traumatizado pelos efeitos da mais grave crise econômica da história, é devastador conviver com a incerteza sobre quais serão os líderes políticos a partir de janeiro de 2019 e, principalmente, se as medidas adotadas por eles serão capazes de devolver à nação e suas empresas condições de competitividade nos grandes mercados do Brasil e do mundo.

Faltam certezas sobre a aprovação das reformas estruturais que vêm sendo adiadas há muitas décadas em razão da prevalência da demagogia, do corporativismo e do fisiologismo sobre os reais interesses da sociedade e do país. Convivemos com uma das mais elevadas cargas tributárias do mundo, com as regras da previdência social que corroem a saúde das finanças públicas, com os excessos da legislação ambiental que inviabilizam projetos produtivos e abortam a geração de empregos em um cenário de mais de 13 milhões de trabalhadores expulsos do mercado de trabalho em razão da fragilidade da economia.

Faltam certezas sobre questões cruciais para o país – e sobra a realidade de um Estado hipertrofiado, que funciona não para servir à sociedade, mas sim para dela servir-se.

A carga tributária com a qual convivemos há longos anos, da ordem de 32% do Produto Interno Bruto (PIB), somada aos mais de 7% do déficit público indicam que cerca de 40% de toda a riqueza produzida pelos brasileiros vai direto do caixa das empresas e do bolso de cada cidadão para os cofres vorazes do governo e é utilizada para financiar serviços públicos geridos de forma ineficiente na saúde, na educação, nos transportes e na segurança pública. É o caos.

As eleições de outubro estão chegando e nos oferecem a oportunidade de refletir sobre o cenário atual e mudá-lo. A decisão é da sociedade, com a consciência e a convicção de que o Estado e os governos são criados e eleitos para servi-la.

Fonte: Estado de Minas – 26/07/2018

 

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