Sem medo do açúcar

Por Hugo da Costa Ribeiro – Pediatra

Extraído do Jornal O Tempo – 09/04/2018

Vivemos numa época de verdadeira guerra de informações e orientações acerca do que as crianças podem ou não podem comer. No meio de tantas provocações, falsas informações e proibições às crianças, pais e familiares ficam perdidos, sem um norte a seguir. No centro de todas as atenções estão os alimentos ricos em açúcar.

Embora saibamos que tudo pode ser desfrutado, desde que com moderação, reduzir o excesso de alimentos ricos em calorias – com altos teores de gordura, sódio e açúcar – pode ajudar as crianças a ter hábitos alimentares saudáveis e prevenir o desenvolvimento de doenças crônicas, como hipertensão, asma, apneia do sono, problemas ósseos e articulares, diabetes tipo 2 e câncer.

Entretanto, não há evidências científicas que justifiquem a proibição, de forma categórica, dos doces e das sobremesas. O que sabemos e reconhecemos é que os excessos não são recomendados. Os pediatras não têm medo do açúcar, pois sabem que o importante é fazer uma dieta diversificada e propagar a educação alimentar, fundamental para uma vida saudável. Em vez de cortar um ingrediente ou outro da dieta, deve-se permitir que as crianças consumam esses alimentos ocasionalmente, educando-as a incorporá-los, em porções adequadas, como parte complementar de uma dieta balanceada e culturalmente aceita.

Uma das maneiras de ajudar os consumidores a saber quanto são essas porções adequadas, além de consultas com nutricionistas e pediatras, são os rótulos nas embalagens de alimentos. Atualmente, a Anvisa estuda novos modelos de rótulos frontais para simplificar a leitura de ingredientes e suas quantidades. É fundamental que as pessoas tenham todas as informações em mãos de maneira clara, fácil, e que possam decidir conscientemente o que comprar. Um dos modelos em avaliação, por exemplo, é o semáforo nutricional, adotado por Inglaterra e Equador. Nele é possível encontrar uma sinalização em que o verde indica que a quantidade ali contida está dentro dos limites recomendados; um pouco acima é destacado em amarelo, e bastante além, em vermelho, o que parece ser um modelo bastante positivo, que contém ainda recomendações de consumo diário.

Outra parte importante do balanceamento das calorias ingeridas é o engajamento em atividades físicas regulares, evitando o excesso de sedentarismo. Pesquisa realizada pelo IBGE (Pnad 2017) revela que 62,1% dos brasileiros com 15 anos ou mais não praticam esporte ou atividade fí- sica. Para se ter uma ideia, a OMS recomenda que se pratique 150 minutos de atividades físicas por semana.

É urgente que se tenha consciência de que a questão da obesidade vai muito além de consumir ou não determinados alimentos. O importante é saber se alimentar com base em porções moderadas a serem ingeridas diariamente, pois não há dúvidas de que as principais causas da obesidade estão relacionadas aos excessos de consumo e ao sedentarismo.

 

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