Autossuficiência energética regional é a meta do novo presidente da EPE

A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) pretende buscar a autossuficiência energética de cada região do Brasil. A medida, que visa aumentar a segurança do abastecimento e que estimula a vocação energética de cada parte do país, é uma das metas traçadas pelo novo presidente da estatal de estudos energéticos, Reive Barros dos Santos.

Em sua primeira entrevista exclusiva desde que assumiu o cargo, há quase um mês, o engenheiro pernambucano também incluiu em sua lista de prioridades a definição de um cronograma para a publicação dos principais estudos da EPE, a garantia da execução integral do orçamento da estatal e a continuidade do plano de internacionalização da empresa.

"Um desafio que estou lançando, e isso vai criar uma necessidade se fazer uma grande discussão, é fazer com que as regiões sejam autossuficientes energeticamente. É um conceito em que a geração se dá mais próximo da carga. Com isso teremos menor custo global e melhor flexibilidade operacional", disse Barros, ao Valor.

Segundo ele, há cerca de 30 anos, o sistema brasileiro necessitava de 0,8 km de linha de transmissão para escoar 1 megawatt de energia. Hoje, é necessário 1,2 km para escoar o mesmo megawatt.

"Optamos em produzir energia no Norte e trazer grandes linhas [de transmissão] para o Sudeste. Entendo que é cada vez mais difícil explorar energia hidráulica. Tem um custo menor, é renovável, mas com todas as questões ambientais, fica cada vez mais difícil explorar energia hidráulica", afirmou o executivo.

"Enquanto as interligações do passado foram vistas como fonte primária, na nossa visão elas serão fonte secundária", disse Barros. "As transferências de carga serão feitas, mas não permanentemente como se dá hoje, porque isso é um risco de operação muito grande, na minha avaliação."

Barros citou como exemplo o último apagão de maior porte no setor, ocorrido em março e que afetou 70 milhões de pessoas, em 14 Estados, tendo sido causado por uma falha no sistema de transmissão de interligação entre as regiões Norte e Sudeste, mas que atingiu principalmente o Nordeste. "Naquele último apagão, todo o sistema do Norte veio atender ao Sudeste, mas quando faltou energia, quem pagou o preço foi o Nordeste. Vamos rever essas premissas."

O presidente da EPE ressaltou ainda que a autossuficiência energética permitirá que as regiões recebam mais investimentos em geração distribuída, dentro de suas vocações energéticas. Esse é o caso, por exemplo, do desenvolvimento do potencial de energia eólica e solar no Nordeste. Além disso, destacou ele, esses investimentos geram emprego e renda em regiões mais carentes, como o Semiárido nordestino.

"O máximo que pudermos fazer para aproveitar todo esse potencial de energia eólica e solar no Brasil, nós devemos fazer. Evidentemente que precisamos considerar que são fontes intermitentes, porém temos alternativas tecnológicas que podem fazer complementaridades, através de armazenamento de energia ou despacho de geração térmica ou de reservatórios [hidrelétricos]. E com isso o Brasil cumpre com o estabelecido na Cop-21, em Paris", afirmou.

Engenheiro, com mais de 40 anos de atuação no setor elétrico brasileiro, com passagens pela Chesf, Celpe e área acadêmica (é professor da Escola Politécnica da Universidade de Pernambuco), Barros pretende utilizar sua experiência na diretoria da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), entre 2014 e 2018, para gerir o principal braço de planejamento energético do país. "A Aneel dá uma visão muito grande do setor como um todo. É uma escola."

Na agência reguladora, Barros deparou-se muitas vezes com problemas de descasamento de cronogramas de projetos de geração e transmissão. Agora pretende implantar uma agenda de publicação dos principais documentos elaborados pela EPE: O Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE, principal estudo sobre a expansão do setor energético brasileiro e que norteia a estratégia dos investidores), o Plano Nacional de Energia (PNE estudo semelhante com prazo mais longo) e o Balanço Energético Nacional (BEN, que faz uma ampla análise anual da oferta e demanda de energia do país).

Com relação ao PDE, o presidente da EPE quer estipular a data de 30 de novembro para a publicação anual do estudo. Esse assunto, porém, ainda será discutido com o Ministério de Minas e Energia (MME), já que o material, após concluído pela EPE, é encaminhado ao ministério, para a publicação oficial. No caso do PNE, a segunda versão do plano, com horizonte 2050, deve ser divulgada até o fim do ano.

Outro ponto considerado fundamental pelo engenheiro é garantir a autonomia e da EPE e o cumprimento do orçamento integral definido para a empresa anualmente. Na sua visão, o custo da estatal é muito pequeno, em relação ao benefício que ela proporciona para o planejamento do mercado energético brasileiro.

"Seria uma situação não muito boa para o país, se tivéssemos que crescer [a economia] e a infraestrutura de energia elétrica não pudesse atender [a esse crescimento] por uma falta de visão antecipada de planejamento porque a empresa que é responsável por isso não teve as condições necessárias para desenvolver o seu trabalho", afirmou Barros.

O ex-diretor da Aneel contou também não ter preconceito com nenhuma fonte de energia. Para ele, todos os tipos de energia podem contribuir para a expansão da oferta do país, inclusive as fontes termelétricas nucleares e a carvão. Segundo ele, o que vai determinar a expansão de cada fonte é o seu custo.

Reconhecendo o trabalho de seus antecessores, o matemático Luiz Augusto Barroso e o engenheiro Maurício Tolmasquim, o terceiro presidente da história da EPE disse que pretende dar continuidade ao processo de internacionalização da empresa.

"Em se tratando de infraestrutura, esta é a mais bem conceituada empresa de planejamento do Brasil. Em qualquer outro setor de infraestrutura, não se encontra uma empresa que sinaliza para a sociedade, a cada ano, uma visão dos próximos dez anos e uma visão dos próximos 50 anos. Já somos referência de planejamento em nível nacional. Hoje temos uma estratégia de internacionalização da empresa", disse Barros.

Fonte: Valor Econômico – 13/06/2018

 

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