Camex mapeia prejuízo ao Brasil com crise argentina

As exportações brasileiras têm "alta sensibilidade" ao agravamento da crise argentina, mas o aumento das vendas para outros países vizinhos pode compensar quase integralmente seus efeitos negativos, conforme aponta um documento reservado do governo, que avalia os impactos da desvalorização do peso e da volta das retenções no comércio bilateral.

Uma queda de 1% no PIB da Argentina - justamente a projeção da Casa Rosada para o desempenho da economia em 2018 - deverá reduzir em 4,4% os embarques brasileiros ao país. Só isso teria como efeito uma retração das vendas em US$ 770 milhões neste ano, segundo estudo produzido pela Câmara de Comércio Exterior (Camex) como subsídio para o conselho de ministros do colegiado, ao qual o Valor teve acesso.

As exportações de automóveis à Argentina, diz o estudo, devem alcançar "no máximo" cerca de 700 mil unidades. Trata-se de um número bem abaixo dos 900 mil carros que a indústria nacional pretendia remeter originalmente neste ano. O mercado vizinho absorve 40% das vendas ao exterior de montadoras instaladas no Brasil.

A equipe da Camex fez simulações também sobre os efeitos do decreto 793, publicado pela Casa Rosada no início de setembro, que estabeleceu impostos sobre as exportações de produtos agrícolas e manufaturados - as chamadas "retenciones". Para fazer as estimativas, o estudo considerou um câmbio de 38 pesos por dólar. De fato, a cotação tem se mantido em torno disso nas últimas semanas.

O argumento do presidente Mauricio Macri e de sua equipe econômica é que a depreciação cambial eleva a competitividade local e que os exportadores podem recolher o tributo como forma de ajudar no ajuste fiscal e alcançar o déficit primário zero em 2019. Apesar do peso mais fraco, o estudo da Camex vê encarecimento dos produtos argentinos e estima queda de 27,2% das vendas ao Brasil por causa da medida. Dada a integração das cadeias produtivas, o novo tributo fará a Argentina importar 10,15% menos das empresas brasileiras.

 Há menção ainda, no relatório de 46 páginas, aos reflexos diretos da desvalorização do peso. Para cada 10% de depreciação na taxa de câmbio real do país vizinho, as exportações brasileiras caem 4%. O dado, no entanto, é considerado pouco confiável pela Camex em termos estatísticos.

Um ponto que o estudo ressalta é a ausência de perdas líquidas significativas. A diminuição das exportações à Argentina é bastante atenuada pelo aumento das vendas para outros mercados, principalmente sul-americanos, em razão do redirecionamento das empresas. Prevê-se uma alta de 2,21% dos embarques ao Paraguai, de 1,88% à Bolívia, de 1,81% ao Uruguai, de 0,84% ao Chile e de 0,63% ao Canadá - além do que normalmente se exportaria a esses países.

Tudo somado, estima-se uma perda de somente 0,96% às exportações brasileiras totais e de inexpressivos 0,03% para o PIB.

Hoje, em Brasília, autoridades da Comissão de Produção e Comércio Brasil-Argentina se reúnem para discutir o intercâmbio bilateral. O encontro será encabeçado pelo ministro brasileiro da Indústria e Comércio Exterior, Marcos Jorge de Lima, e pelo ministro argentino da Produção, Dante Sica, cuja pasta foi fortalecida recentemente na reformulação do gabinete promovida por Macri. Sica absorveu os antigos ministérios da Agricultura e do Trabalho, que perderam status e se transformaram em secretarias.

Marcos Jorge disse ao Valor que a ideia é avançar em temas de convergência regulatória - os dois países assinaram recentemente um acordo para harmonização de normas na indústria automotiva - e de simplificação de procedimentos alfandegários.

Ele pretende fazer uma análise, com o colega argentino, da proposta de adiamento do livre-comércio para automóveis e autopeças. A previsão do acordo em vigência era de fim do comércio administrado em 2020, mas a Argentina quer estender o prazo para 2023. O país propõe manter o índice "flex" atual, que limita a quantidade de exportações brasileiras.

Valor Econômico – 10/10/18

 

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