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Estado tem potencial para desenvolver hidrogênio verde

05 de Agosto de 2022

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Entre as grandes potencialidades do Brasil está a geração de energia renovável. Seja ela hidrelétrica, eólica ou solar, a abundância de recursos naturais como água, vento e sol eleva o País a um patamar de destaque, especialmente em uma era em que ações em prol da sustentabilidade do planeta ditam as relações socioeconômicas globais. E na esteira das grandes apostas para carbono neutro está o uso de hidrogênio verde, também chamado de “combustível do futuro”, que movimenta bilhões de dólares mundo afora.

Provável substituto do combustível fóssil, o hidrogênio verde pode ser usado do transporte à indústria, movendo carros, ônibus, caminhões, aeronaves e navios e também abastecendo grandes cadeias produtivas. No agronegócio, além de colaborar para a descarbonização, é projetado como fonte abundante de matéria-prima para a produção de fertilizantes.

O hidrogênio é o elemento químico mais abundante na natureza, mas na Terra ele só existe a partir da combinação com outras substâncias, como gases, carvão, petróleo e água. Porém, para utilizá-lo, é preciso fazer a separação. Assim, o elemento é usado nas variações marrom, cinza e azul. O marrom é gerado usando carvão, o cinza a partir do gás natural ou metano e o azul pela captura de gás carbônico. Já o verde pode ser produzido por processos como a reforma do etanol, gás de biomassa ou pela eletrólise da água, usando energia renovável (eólica ou solar).

É aí que entra o diferencial do Brasil. Como o País possui amplo potencial para todas essas fontes, é grande também a capacidade de produzir hidrogênio verde para consumo próprio e até exportação. E as perspectivas vão além. O Brasil também é destaque mundial na produção tanto de biomassa quanto do etanol e, por isso, seus usos se apresentam como outras excelentes rotas tecnológicas para a produção do hidrogênio.

Dados da Agência Internacional de Energia Renovável indicam que em 2050 o hidrogênio verde deve ser responsável por 12% da demanda global de energia. As apostas são que o Brasil tenha condições de produzir, consumir e exportar não apenas o “combustível do futuro”, mas também tecnologias para obtenção do hidrogênio.

Porém, apesar de todo potencial e expectativas, ainda vai levar um tempo para que a expansão do hidrogênio verde se torne realidade. Nota técnica do governo federal publicada em 2021, que trata sobre a Consolidação da Estratégia Brasileira do Hidrogênio, aponta que as aplicações energéticas ainda são muito limitadas, por fatores como, por exemplo, desafios tecnológicos, custos e dificuldade de transporte e armazenamento. Há ainda necessidade de desenvolvimento de arcabouços institucionais e regulatórios.

O assunto é tema desta edição do #JuntosPorMinas, projeto do DIÁRIO DO COMÉRCIO que aborda desafios e gargalos do Estado que possam ser transformados em oportunidades de desenvolvimento econômico e inclusão.

Minas Gerais na corrida pelo combustível do futuro

Líder nacional na produção de energia solar e destaque como terceiro maior produtor brasileiro de cana-de-açúcar e quarto de etanol, Minas Gerais está na corrida pelo mercado de hidrogênio verde e vem despontando nas pesquisas e investimentos do setor. Mas o Ceará está na dianteira e já contabiliza quase duas dúzias de memorandos para produção.

Mantendo o Nordeste como destaque, no fim do mês passado, a Unigel anunciou investimentos de US$ 120 milhões na construção daquela que será a primeira fábrica de hidrogênio verde em escala industrial do Brasil. A planta será instalada em Camaçari (BA) e entrará em operação no fim de 2023, com produção de 10 mil toneladas do produto ao ano.

Em Minas, o Governo do Estado, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Sede), informou que vem trabalhando em um plano estratégico para que empreendimentos ligados à geração de combustível possam, de fato, se desenvolver. O planejamento prevê a realização de estudos comparativos em relação a iniciativas executadas em outros estados e países, aprofundamento sobre oferta e demanda e a articulação com players do mercado para definição de incentivos. O objetivo é tornar Minas um ambiente atrativo para investimentos do setor.

Programa

Também nesse sentido, há cerca de um ano, foi lançado o Programa “Minas do Hidrogênio” para estimular e estruturar a produção do hidrogênio verde no Estado – uma iniciativa do governo com o apoio da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg). O objetivo é fomentar a cadeia produtiva: da molécula à produção de equipamentos e o desenvolvimento de tecnologias.

A gerente de Energia da entidade, Tânia Mara Santos, diz que o hidrogênio verde é uma grande oportunidade. E que, mais do que investir na geração e armazenamento, é um caminho para substituição dos combustíveis fósseis nas indústrias-base do Estado, como a mineração e a siderurgia. E também de subprodutos como a amônia utilizada nos fertilizantes, além do uso como combustível na mobilidade.

Para ela, o diferencial de Minas Gerais está justamente em olhar para sua própria indústria e fazer diferente de outros estados, focando no mercado interno, agregando valor a produtos que já são fortes no mercado internacional e, assim, tornar a indústria mineira mais competitiva.

“A indústria está ávida por ações e metas de neutralidade do carbono. A mineração faz uso de veículos movidos a diesel que poderão ser substituídos por caminhões a hidrogênio; as siderúrgicas usam carvão, coque e outros energéticos que também poderão ser substituídos. Muito mais do que exportar, poderemos utilizar o hidrogênio em nossa própria cadeia produtiva e torná-la circular”, afirma.

O maior desafio, porém, conforme a especialista, diz respeito à criação de uma política pública que incentive e faça alavancar esse mercado. Ela cita o que foi feito com a energia fotovoltaica no passado recente e que culminou com aportes vultosos para o Estado. Sem contar o sempre necessário investimento em pesquisa e desenvolvimento. “Só a união de esforços será capaz de fazer nossa matriz energética e as cadeias produtivas irem rumo a descarbonização”, defende.

Biometano como fonte

A gerente executiva da Associação Brasileira do Biogás (Abiogás), Tamar Roitman, por sua vez, lembra que Minas Gerais já é referência na produção de biogás, abrigando o maior número de plantas do País. Por isso, tem grande potencial de produção de hidrogênio pela rota do biogás. É que, pelo fator preço, o gás natural ainda é a matéria-prima mais consistente para o hidrogênio, e o biogás e o biometano podem integrar esse processo. “Essa solução está pronta. Basicamente não teríamos que alterar em nada a infraestrutura que já existe, e o biometano é totalmente equivalente ao gás natural”, defende.

De acordo com a associação, o Brasil tem potencial para produção de 20 mil toneladas por dia de hidrogênio verde a partir do biometano – o que equivale a sete milhões de toneladas por ano. No entanto, esse potencial ainda é pouco aproveitado. Conforme Tamar Roitman, faltam tecnologias para uma melhor exploração.

Vale dizer que há cerca de um ano, a rota de produção de hidrogênio verde a partir de biocombustíveis como etanol e biometano foi incluída pelo governo federal nas diretrizes do Programa Nacional de Hidrogênio (PNH2). O programa se propõe a definir ações que facilitem o desenvolvimento conjunto de três pilares fundamentais para o sucesso da economia do hidrogênio: políticas públicas, tecnologia e mercado.

Agência alemã tem projeto em Itajubá

Em novembro de 2021, a Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ) anunciou que o projeto-piloto para produção de Hidrogênio Verde (H2V) será construído na Universidade Federal de Itajubá (Unifei), no Sul de Minas. A agência estima aportes de 5 milhões de euros para a construção, até o final de 2023, naquele que será o Centro de Produção e Pesquisas em Hidrogênio Verde (CPPHV). A unidade contará inicialmente com uma capacidade de 1 MW de eletrólise, abastecida por energia solar.

Mais recentemente, em abril deste ano, a empresa alemã Neuman & Esser assinou um protocolo de intenções com o Governo do Estado para investir até R$ 45 milhões na fabricação de equipamentos de geração de hidrogênio verde. O presidente da empresa, Marcelo Veneroso, que é também presidente do conselho de mercado do hidrogênio da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), é um entusiasta e estudioso do assunto. Segundo ele, mais do que fabricar os equipamentos, a empresa pretende exportar a tecnologia utilizada na fabricação dos equipamentos para Alemanha, Estados Unidos e Ásia.

A aposta deriva do potencial de consumo do combustível em todo o mundo. Ele explica que o hidrogênio verde já é realidade em alguns países como Estados Unidos, Rússia, China, França e Alemanha. Mas que em grande quantidade, por enquanto, só é encontrado nas refinarias, ainda assim, na forma cinza, produzido a partir do gás natural. “Do verde, o que temos ainda são projetos”, cita.

O Brasil, segundo Veneroso, tem se destacado tanto pela abundância das energias renováveis para a eletrólise da água quanto pelo uso do etanol. Em termos práticos, o empresário acredita que entre 2023 e 2024 já será possível ver empresas que assinaram memorandos de investimentos – como a Neuman -, iniciando seus projetos e as primeiras fases prontas entre 2025 e 2026. Neste período, ele avalia que também deveremos ter grandes projetos para atender a Europa. Mas somente a partir de 2030 é que a população terá condições de perceber o hidrogênio em seu dia a dia.

Em termos de mobilidade, que é justamente onde a sociedade começa a perceber os resultados mais rapidamente, o empresário vislumbra que algo poderá ser visto já a partir do ano que vem, com projetos de carros e ônibus a hidrogênio no Brasil. “Mas acredito que tudo isso será mais palpável entre 2027 e 2030. Aí sim as pessoas poderão adquirir seus veículos. Lá para 2040 deveremos ter uma sociedade com o hidrogênio bem presente; e, entre 2050 e 2060, parte significativa da energia do mundo será gerada pelo combustível do futuro”, projeta.

Fonte: Diário do Comércio – 05/08/22

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