Queda do consumo tende a reduzir déficit global de açúcar em 2020/21

A relação entre oferta e demanda de açúcar no mundo na safra internacional atual (2019/20), que começou em outubro, tende a ficar menos apertada diante dos impactos da pandemia do novo coronavírus, que deverá limitar o consumo e estimular a produção no Brasil.

Diante da conjuntura, a S&P Global Platts, por exemplo, passou a estimar que a produção global será menor que o consumo em 5,45 milhões de toneladas, volume que já foi maior e poderá ser reduzido ainda mais a depender dos rumos da crise.

A Platts agora prevê produção de 4,82 milhões de toneladas maior no Centro-Sul brasileiro no período da safra internacional vigente. Esse aumento deverá ofuscar os problemas enfrentados por Tailândia e Cuba. A consultoria cortou as projeções para a oferta desses países em 700 mil e 148 mil toneladas, respectivamente.

No período da safra brasileira, que começou em 1º de abril, a estimativa da Platts para a produção do Centro-Sul foi elevada em mais de 2 milhões de toneladas ante a projeção anterior, para 33,7 milhões, considerando que as usinas destinarão 43% do caldo de cana à fabricação da commodity (a projeção anterior era de 40%) e moerão 600 milhões de toneladas da matéria-prima.

Como consequência, a estimativa para as exportações brasileiras de açúcar também aumentou - cerca de 4,2 milhões de toneladas (3,4 milhões de toneladas de açúcar bruto e 810 mil de açúcar branco), para 24 milhões. Se esse patamar prevalecer, o avanço em relação à safra passada será de 6,8 milhões de toneladas.

E esse incremento poderá ser até maior se as usinas brasileiras migrarem suas fábricas para a máxima capacidade de produção de açúcar, que chega a 49,5% no “mix”, completado pelo etanol.

Para abril, primeiro mês da safra nacional, a Platts avalia que os embarques brasileiros ainda não crescerão de forma relevante ante o mesmo mês de 2019. Segundo a empresa, a diferença ficará mais clara a partir de maio, quando as exportações estão estimadas em mais de 1,5 milhão de toneladas. O pico das vendas externas deverá ser alcançado em setembro, quando os volumes tendem a superar 2,5 milhões de toneladas.

O excesso de fluxo para exportação de açúcar nos próximos meses, combinado com o escoamento da safra brasileira de grãos, poderá inclusive gerar atraso nos embarques nos portos, disse Claudiu Covrig, analista sênior da Platts, em apresentação virtual.

Preocupação semelhante foi levantada pelo Itaú BBA, que observou, em relatório, que um aumento na competição por logística “pode impactar a velocidade de embarques e, consequentemente, prejudicar o fluxo de caixa das empresas”.

Ainda assim, o custo com frete para exportação de açúcar deverá continuar em baixa, conforme a Platts. Desde o início da crise do coronavírus, o frete marítimo para açúcar nas rotas entre Brasil e China e entre Tailândia e Indonésia recuou 25%.

No lado da demanda, a consultoria vê uma demanda por importação até resistente, mas com consumo mais fraco em regiões como China, Europa e Irã, por causa da pandemia. A Platts cortou sua projeção para o consumo na China na safra internacional 2019/20 em 250 mil toneladas, e para o do Irã em 100 mil toneladas. Para a UE, a estimativa de consumo foi reduzida em 1%.

Desde o início da pandemia, a Platts já reduziu sua projeção para o consumo em 1%, ou 1,8 milhão de toneladas, sendo a última redução de 870 mil toneladas. Ante a safra passada, o volume de consumo de açúcar no mundo esperado para esta temporada é apenas 0,37% maior.

A própria consultoria admite que mais cortes poderão ser feitos, agora para EUA, Brasil, Índia e Oriente Médio. Outros mercados estão mais preservados. É o caso da África, por causa dos baixos preços da commodity, e de outros mais “maduros”, em razão de compras para estocagem.

Ainda que exista uma demanda resiliente por importação, Covrig realçou que ainda há estoques elevados, sobretudo na China e na Índia. A relação global entre estoque e consumo de açúcar prevista pela Platts é superior a 50% na safra internacional atual. Para a safra 2020/21, a estimativa da empresa é de déficit de oferta global, mas menor que o atual, de 2,49 milhões de toneladas.


Fonte: Valor Econômico - 08/04 

 

 

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