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A safra recorde e o descolamento do preço do etanol frente à gasolina

28 de Novembro de 2023

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* Peterson Santos

Após o abandono oficial da chamada política de paridade de preços de importação (PPI) surgiram grandes preocupações no setor sucroenergético em função de uma possível precificação artificialmente baixa da gasolina no mercado brasileiro.

Curiosamente, porém, o que se viu foi uma redução do preço do petróleo durante todo o primeiro semestre, que foi utilizada como janela para uma completa reoneração da gasolina no mercado doméstico. A gasolina C, nas bombas, por fim, acabou experimentando um lento e progressivo aumento desde o início de 2023.

Essa alta do preço da gasolina, contudo, não se refletiu em qualquer recuperação do preço recebido pelas usinas e destilarias na comercialização do etanol hidratado.

A despeito dos movimentos recentes, a precificação da gasolina segue absolutamente fundamental na determinação do preço do etanol, entretanto, acaba tendo o papel de imposição do limite superior do preço do biocombustível dado pela paridade que o consumidor está disposto a aceitar. O quão abaixo do referido teto a paridade se encontrará nos postos de combustíveis depende basicamente do balanço entre oferta e demanda de etanol.

Atualmente, o principal impedimento da recuperação do preço do biocombustível é sua elevada oferta, puxada por uma produção recorde de cana-de-açúcar. No acumulado entre abril e outubro, mesmo com um mix fortemente açucareiro, a produção de etanol se elevou 10% entre as safras 2022/23 e 2022/23.

Com o consumo relativamente estagnado, a alta de produção resultou em rápido crescimento dos estoques, principalmente nas destilarias – incapazes de direcionar a alta quantidade de matéria-prima para o açúcar. Nesse cenário, as distribuidoras ganharam grande poder de barganha, resultado em uma acelerada redução da paridade e progressivo aumento das vendas de etanol pelas distribuidoras.

A medida em que a entressafra avança, naturalmente a oferta de etanol tende a se reduzir, o que, sazonalmente, contribuiria para alguma recuperação dos preços. Porém, as próprias distribuidoras parecem se encontrar bem abastecidas e a expectativa de que a moagem se reinicie no Centro-Sul, ainda em março, pode significar uma retomada antecipada na formação desses estoques.

Em suma, ainda que exista uma expectativa de recuperação no preço do etanol – especialmente se o da gasolina seguir positivamente reajustado – a grande oferta do produto deve manter um cenário desafiador, principalmente para as destilarias nos próximos meses e adentrando a safra 2024/25.

* Peterson Santos é economista do Pecege Consultoria e Projetos

Fonte: Pecege via Nova Cana - 27/11/2023

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