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Entenda por que a tendência empreendedora de 2024 são os negócios de impacto

08 de Fevereiro de 2024

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*Mariana Kobayashi 

2024 começa com um belo cartão de visita ao mostrar alguns números que irão ditar a principal tendência daqui para frente. Mas que tendência é essa? Para ser direta, a tendência, ou melhor, as tendências em questão são os negócios de impacto.  

Eles já são cerca de 10 milhões de empreendimentos que colocam o propósito acima do lucro, gerando cerca de 2 trilhões de dólares em receita anual. Hoje, essas iniciativas que geram impacto positivo para a sociedade e o meio ambiente são responsáveis por criar 200 milhões de empregos em diversos setores. 

Mas o potencial ainda promete. Tais empreendimentos buscam cerca de 1,1 trilhão de dólares em financiamento externo para escalar seus modelos de negócio e ampliar seu alcance. E com um diferencial: metade deles são liderados por mulheres, em comparação com o que vemos em empresas convencionais, onde apenas uma em cada cinco empresas possuem a figura feminina na sua mais alta hierarquia. 

Diante desse crescimento, não é de surpreender que atualmente os negócios de impacto são um setor maior do que a indústria de vestuário (1,57 trilhão de dólares) e duas vezes maior do que a indústria de publicidade (875 bilhões de dólares). 

Esses dados vieram à tona graças ao The Stateof Social Enterprise 2024, o primeiro relatório a detalhar tão profundamente esse ecossistema de inovação social. A aliança pela pesquisa e produção do documento é idealizada pelo Fórum Econômico Mundial, que já conta com a participação de empresas como Microsoft, Google e Deloitte. 

A inovação social é uma resposta de empreendedores que veem suas vidas profissionais integradas às suas vidas pessoais. É uma resposta para a pergunta, “Como eu encontro propósito no meu trabalho?”. 

Sem dúvida, uma necessidade que também reverbera no atual consumidor, que de produto em produto busca aquele que melhor se encaixa com os seus valores. E dentro desse contexto, também podemos agora enxergar novos números que ampliam o nosso esclarecimento sobre essa correlação entre negócios e impacto. E o meu favorito é 57. 

O Índice de Consumo Consciente (#CCSIndex) atingiu um recorde histórico em 2023, marcando 57 pontos. Esse aumento de 9 pontos em relação ao ano anterior é um indicador chave da crescente demanda por produtos e serviços de empresas que não buscam apenas o lucro, mas que estão intrinsecamente alinhadas com valores sociais e ambientais. Termos como “Empresa B” e “startups de impacto”, antes restritos a nichos, agora fazem parte do léxico comum. 

O #CCSIndex é um estudo realizado anualmente desde 2013 pela consultoria de marketing Good. Must. Grow. O índice avalia o interesse dos consumidores por gastos, doações e práticas ambientalmente conscientes. Nos últimos anos, o índice variou bastante: atingiu o recorde mínimo de 39 em 2020, subiu para 51 no ano seguinte e caiu para 48 em 2022.  

Logo, um aumento desse tamanho mostra muito o que esperar dos anos seguintes. Porém, antes é preciso entender como isso está relacionado aos novos empreendimentos que irão surgir tendo o impacto positivo como algo lado a lado, ou mesmo, à frente do lucro. 

Primeiro, consideremos a crise climática e a transformação no comportamento do consumidor. Há uma mudança gigantesca nos critérios de compra dos consumidores, principalmente entre Millennials e Zoomers, com 93% e 94% dos entrevistados, respectivamente, priorizando a sustentabilidade, segundo o relatório da ESW. E esses números não são meramente estatísticos; eles representam um grito coletivo por responsabilidade corporativa e respeito ambiental. 

A evolução das expectativas dos consumidores exige uma reavaliação das estratégias de negócios. 

Empresas que ignoram essa mudança de paradigma correm o risco de obsolescência. Em contrapartida, aquelas que abraçam esta nova realidade encontram-se na vanguarda de um mercado emergente. 

Essa conscientização ambiental e social redefine o empreendedorismo. A questão central para os novos empreendedores não é mais apenas “Como posso lucrar?”, mas sim “Como posso beneficiar a sociedade e o meio ambiente enquanto lucro?”. Esse realinhamento de prioridades sinaliza uma era de negócios impulsionados não apenas por balanços financeiros, mas também por impactos socioambientais. 

Obviamente, empreender assim cria seus desafios particulares. Encontrar financiamento sustentável, estabelecer parcerias estratégicas, adaptar modelos de negócios, manter o compromisso com o propósito e navegar por um terreno jurídico incerto são obstáculos significativos. No entanto, esses desafios também representam oportunidades para inovação e crescimento. 

O relatório da ESW que mencionei acima revela que 67% dos consumidores valorizam a produção ética no momento de decidir por suas compras on-line. Um olhar mais atento revela então um consumidor mais esclarecido, capaz de discernir “greenwashing” e mais inclinado a apoiar produtos com impacto ambiental positivo. Isso não é uma moda passageira, mas uma mudança fundamental na mentalidade do consumidor. 

O equilíbrio entre impacto socioambiental e sustentabilidade financeira é o santo graal para as empresas modernas. Não existe uma fórmula única para alcançá-lo, mas práticas como ter um propósito claro, definir metas mensuráveis, buscar financiamento alinhado, estabelecer parcerias estratégicas, investir em inovação e manter a transparência, são essenciais. 

Em 2024, vamos conseguir ter uma visão melhor de como os sentimentos dos consumidores vão ser refletidos nos novos empreendedores. O propósito da vida transforma-se na missão do trabalho.  

A tendência dos negócios de impacto em 2024 não é um acaso, mas o resultado de uma mudança profunda nas expectativas dos consumidores, na mentalidade empreendedora e na maneira como a tecnologia está sendo utilizada para enfrentar desafios socioambientais. 

As tecnologias emergentes ampliam o alcance e a eficácia dos negócios de impacto. Elas permitem operações mais eficientes, melhoram a qualidade dos produtos e serviços e facilitam a comunicação com stakeholders. Este é um terreno fértil para inovação contínua e adaptação às demandas do mercado. 

Logo, toda essa tendência reflete uma nova era de responsabilidade corporativa, onde sucesso profissional e pessoal se confundem, e vemos consumidores e empreendedores negociando uma nova moeda: aquela que investe mais no bem da sociedade e do planeta. 

*Mariana Kobayashi é cofundadora da Tech do Bem 

Fonte: Diário do Comércio08/02/2024 

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