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Por que a gasolina brasileira tem tanto álcool. E isso deve aumentar

10 de Janeiro de 2024

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Pense no seguinte cenário hipotético: você pede um quilo de picanha, mas, na prática, o açougue te entrega 725 gramas de picanha e 275 gramas de outra carne - que faz o mesmo efeito, mas "rende" menos. Para compensar, ela é mais sustentável, pois esses "bois" especiais emitem menos gases de efeito estufa.

É exatamente isso que acontece com a gasolina brasileira, que tem 27,5% de etanol em sua composição para se tornar mais "amiga" do meio ambiente. A novidade é que esse percentual deve aumentar em breve para 30%, se o Projeto de Lei do "Combustível no Futuro", proposto pelo governo Lula, for aprovado no Congresso Nacional.

O governo enviou em setembro ao Congresso um pacote de iniciativas para reduzir a dependência de combustíveis fósseis e a emissão de gases de efeito estufa. Uma das propostas é alterar o teor de etanol da gasolina. A justificativa é de que esse aumento ajudará a reduzir o preço do combustível, já que o etanol é mais barato.

Afinal, por que a gasolina brasileiro tem tanto álcool?

No Brasil, a mistura surgiu na segunda metade do século passado, como uma estratégia para reduzir a dependência do petróleo estrangeiro, como explica o professor Renato Romio, do Instituto Mauá de Tecnologia. A medida funcionou muito nas décadas de 70/80, mas a redução da importação não era o único benefício.

"O etanol melhora a característica da gasolina, dando uma melhor octanagem, resistindo a uma compressão maior. Na prática, isso significa que adicionar etanol em uma gasolina mais simples transforma o produto final em um combustível de qualidade. O que também melhora o preço", explica o professor.

No entanto, segundo a Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes (Fecombustíveis) já pontuou, nem sempre essa estratégia é válida. Enquanto o preço da gasolina é ajustado de acordo com parâmetros internacionais, o valor do etanol - que é um derivado da cana-de-açúcar - depende da disponibilidade da matéria prima. Ou seja, de safras e entressafras.

Quando vivemos uma crise hídrica no Brasil, em 2021 por exemplo, a Fecombustíveis chegou a pedir ao governo que baixasse a porcentagem para 18%, devido à baixa oferta de etanol.

Outra razão para a aposta na mistura é a sustentabilidade, explica o professor Renato Romio. "Essa é uma questão mais atual. O etanol é considerado um combustível renovável, pois no balanço energético, não produz C02. Isso acontece porque os gases que são emitidos na combustão são recapturados na plantação da cana-de-açúcar”.

"É exatamente por isso que a Índia e alguns países da Europa encontraram na inclusão do etanol na gasolina uma saída para a redução de emissões de gases poluentes", completa.

Para o professor, o fato de o etanol não ser difundido em países da Europa e nos Estados Unidos é muito mais uma questão econômica do que qualidade do combustível.

"Muitos países não utilizam uma fórmula como a nossa porque não é tão rentável quanto aqui. Enquanto produzimos etanol da cana-de-açúcar, nos Estados Unidos o combustível vem do milho e na Europa da beterraba. Ambas são produções bem mais caras, que não fariam sentido economicamente falando", argumenta Romio.

Os carros podem dar defeito?

De acordo com especialista entrevistado pelo UOL Carros, nos motores flex não haverá problemas, mas os que são movidos somente a gasolina podem sofrer com aumento de corrosão e desgaste de itens por onde passa o combustível. Carros com injeção direta podem ser mais afetados por esses problemas.

"Quem mais vai sofrer são os carros antigos que têm carburador. Quando eram feitos, havia 20% de álcool na gasolina, então não tem como corrigir sem regular o carburador", avalia Pedro Luiz Scopino, responsável técnico da Scopino Auto Club.

Outra questão é que todos os carros consumirão um pouco mais, já que o álcool tem menor poder de combustão e precisa estar em maior quantidade para queimar o ar dentro da câmara do motor.

Fonte: UOL - 09/01/2024

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