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Projetos de captura e uso de carbono precisam de novos modelos de negócios, diz IEA

06 de Novembro de 2023

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A edição de 2023 do World Energy Outlook (WEO 2023) da Agência Internacional de Energia (IEA, em inglês) trouxe um choque de realidade sobre a capacidade global de avançar com projetos de captura, armazenamento e utilização de carbono (CCUS).

Até 2030, a agência estima que o mundo deve capturar cerca de 400 milhões de toneladas de CO2 em usinas a carvão, no setor de óleo e gás e indústrias intensivas em energia e emissão para alinhar com as metas de neutralidade climática.

Mas o ritmo de implantação dos projetos de CCUS está praticamente estagnado – a capacidade total está em aproximadamente 40 milhões de toneladas há três anos, de acordo com a IEA.

 

A questão é muito mais financeira do que tecnológica, afirma a engenheira Nathália Weber, cofundadora da CCS Brasil, associação da cadeia produtiva. “Enquanto não houver um valor atribuído à emissão de CO2, vai ser muito difícil avançar com esses projetos”, afirma.

Na visão de Weber, o relatório da IEA mostra que é importante escalar o mais rápido possível essas tecnologias, que já estão maduras, mas dependem de políticas de apoio e precificação do carbono para viabilizar os empreendimentos.

“É ruim quando a gente compara com outras soluções que são fundamentais para a transição, como painéis solares e hidrogênio, porque são produtos energéticos com valor comercial intrínseco. CO2 não tem valor comercial intrínseco. A demanda atual pelo gás pela indústria de bebidas, por exemplo, é muito pequena”, observa.

 

Essa atribuição de valor pode vir através de sistemas de comercialização de emissões, que estabelecem um teto para as empresas. “Isso dá um sinal claro de que existe um limite de emissão que precisa ser cumprido. Se ele for ultrapassado, haverá um custo associado. Portanto, é um incentivo a descarbonizar de fato e começa a fazer sentido para algumas empresas aplicar CCUS”, explica.

Por aqui, estudo da CCS Brasil calcula que a adoção da tecnologia combinada à precificação do carbono pode adicionar até US$ 20 bilhões por ano à receita das empresas.

Outra solução está nos incentivos diretos. Nesse caso, a Lei de Redução da Inflação (IRA, em inglês) de Joe Biden, nos EUA, é o exemplo mais emblemático. O crédito fiscal foi turbinado em julho deste ano, para US$ 60 por tonelada de CO2 utilizado na recuperação avançada de petróleo ou outras operações industriais e para US$ 85/t para CO2 armazenado permanentemente, de US$ 35/t e US$ 50/t, respectivamente, de acordo com a S&P Global.

 

CO2 como commodity

Transformar o gás de efeito estufa em produtos e comercializá-los como commodities é um terceiro caminho que tem atraído investimentos privados, conta Weber.

Mas o volume de CO2 emitido pelos combustíveis fósseis é muito maior do que a demanda esperada para os novos produtos que estão sendo desenvolvidos. É por isso que os projetos de CCUS incluem ainda o armazenamento geológico permanente, para estocar o gás fora da atmosfera.

“Nos últimos dois anos, começamos a ver diversos modelos de negócios que serão abarcados para fazer CCUS. A captura, armazenamento e transporte estão sendo chamados de serviços. Com muitos projetos sendo anunciados, a cadeia de fornecimento e os possíveis operadores começaram a pensar modelos de negócios diferentes do que se imaginava 20 anos atrás”, conta Isabela Morbach, também cofundadora da CCS Brasil.

 

CCS no mercado de carbono

O Brasil discute a criação de um sistema de comércio de emissões no modelo cap and trade, similar ao europeu, com o projeto de lei 412/2022. Para Morbach, o texto, aprovado pelo Senado no início de outubro, e agora sob análise da Câmara, não endereça de forma precisa a atividade.

No mundo, ela lista que apenas quatro regulações tratam do tema de forma específica no mercado de carbono: União Europeia, Reino Unido, Nova Zelândia e Quebec. “Elas incluem o CCS de formas diferentes, mas já preveem o armazenamento geológico. Algumas como ciclo de vida de uma planta industrial que armazena carbono, e tem legislação começando a considerar como offset, como BECCS (bioenergia) e DACS (captura direta do ar)”, relata a advogada.

Ela explica ainda que o ideal é que a captura e armazenamento de carbono seja considerada no ciclo de vida, porque há um limite do que pode ser usado para a compensação (offset).

Fonte: EPBR: 06/11/2023

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