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Venda de carro cresce, mas produção está estagnada

09 de Fevereiro de 2024

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Apesar dos sucessivos meses de crescimento das vendas de carros no Brasil, a produção dessa indústria não avança. Em 2023, enquanto o mercado doméstico registrou expansão de 9,7% a produção caiu 1,9%. Agora em janeiro, de novo: vendas internas aumentaram 13% em relação ao mesmo mês de 2023, mas a quantidade de veículos que saiu das fábricas brasileiras foi exatamente igual ao de um ano atrás. A indústria local tem perdido espaço tanto nas exportações para países vizinhos como no mercado interno porque concorrentes de outros países avançam nas duas frentes.

A velocidade da queda nas exportações começou a chamar a atenção na segunda metade de 2023. O setor fechou o ano com 403,9 mil veículos embarcados, uma retração de 16% na comparação com 2022, ano marcado pela recuperação do comércio exterior após o pico da pandemia. No mês passado, foram exportados 19 mil veículos, volume 43% mais baixo do que o registrado em janeiro de 2023.

Ao divulgar o desempenho no primeiro mês do ano, na quinta-feira (8), a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) apontou o enfraquecimento da atividade econômica em vizinhos como a Argentina e Chile como principal fator da queda nos embarques.

Mas a isso é preciso somar a perda de espaço para concorrentes de outros países, uma questão levantada pela mesma entidade há alguns meses.

Já faz algum tempo que a indústria automobilística instalada no Brasil começou a enfrentar forte concorrência, sobretudo dos asiáticos. Isso aparece em toda a América do Sul, que costumava ter nas fábricas brasileiras a principal fonte de abastecimento de veículos. Marcas chinesas aproveitam o aumento do interesse dos consumidores da região pelos modelos híbridos e elétricos para avançar na região com novidades nesse segmento. A indústria brasileira tem pouca oferta desses produtos; é limitada a alguns híbridos e nenhum elétrico.

Na Colômbia, por exemplo, com pequena produção local de veículos, no último ano, a participação dos híbridos e 100% elétricos no mercado local passou de 10,6% para 16,9%, segundo dados da Associação Nacional de Mobilidade Sustentável (Andemos). As vendas totais de veículos no país encolheram 28,9% no mesmo período. Segundo o presidente da Anfavea, Márcio de Lima Leite, em janeiro, as exportações de veículos do Brasil para a Argentina e para o México recuaram 19% em ambos. Já para a Colômbia e Chile, as quedas chegaram a 79% e 60%, respectivamente.

A concorrência externa também avança no mercado interno do Brasil, maior produtor de veículos da região e oitavo no mundo. As marcas estrangeiras aproveitam o aumento de demanda de automóveis, provocada, em grande parte, pela queda nos juros.

Em janeiro, foram licenciados em todo o país 161,1 mil veículos, o que representou aumento de 13,1% na comparação com o mesmo mês do ano passado. O segmento de automóveis puxou esse crescimento, com 152,2 mil unidades, volume 16,5% maior do que o registrado em janeiro de 2023.

Há um ano, os carros importados representavam 14,3% no mercado de novos no Brasil. No mês passado, chegaram a 19,5%. Por isso, o ritmo de produção das fábricas brasileiras não segue a expansão da demanda.

O presidente da Anfavea demonstra preocupação com o avanço das marcas estrangeiras que não produzem no país. “A importação tem que ser em patamar que não prejudique a indústria”, destacou Leite.

“Importação tem de ser em patamar que não prejudique a indústria” — Márcio Leite

Os chineses lideram essa corrida estrangeira. Nos últimos quatro anos, a participação da Argentina, de onde as próprias montadoras importam, aproveitando o acordo de livre comércio, no mercado de importados no Brasil passou de 63% para 46%. A fatia do México também caiu, de 15% para 11%. Mas a da China deu um salto - de 2% para 25%.

A Anfavea avalia o avanço das importações em janeiro como resultado do aumento de vendas de modelos híbridos e elétricos, que são, em grande parte, produzidos no exterior. Segundo a entidade, Entre os carros importados em janeiro, 14% são elétricos e 19% são híbridos.

As marcas chinesas reforçaram estoques desses modelos aproveitando o aumento de demanda de consumidores que quiseram se antecipar ao aumento do Imposto de Importação.

Em janeiro, entrou em vigor a volta do Imposto de Importação dos carros 100% elétricos, isentos desde 2016, e o aumento das alíquotas para híbridos, reduzidas durante o mesmo período. A maior parte das marcas manteve preços em janeiro em razão dos estoques acumulados antes do aumento da tributação.

Segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), o mês passado foi o melhor janeiro e o segundo melhor mês de toda a série histórica da entidade. A venda híbridos e elétricos totalizou 12,02 mil unidades, um aumento de 167% em relação ao mesmo mês do ano passado. O Imposto de Importação vai subir de forma gradativa, começando com alíquotas de 10% a 12% em janeiro até chegar a 35% em julho de 2026. O tempo dirá se a elevação do imposto devolverá a competitividade à indústria local.

Enquanto isso, as montadoras com fábricas no país se movimentam para renovar a linha de produtos e ampliar a oferta dos modelos eletrificados. Há poucos dias, a Volkswagen anunciou um novo investimento, de R$ 9 bilhões, para o período de 2024 a 2028, e revelou que a maior parte dos recursos será direcionada a uma nova plataforma especialmente desenvolvida para ser usada em modelos híbridos que poderão ser abastecidos com etanol. Na semana passada, matéria do Valor mostrou que o volume de investimentos anunciados desde 2021 pela indústria automobilística no país para a década atual soma R$ 41,4 bilhões.

Fonte: Valor Econômico - 09/02/2024

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